Já nasci errado, estar errado é só uma aventura a mais

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Língua é foda meu irmão! Pra se aventurar naquele matagal do intercâmbio entre elas tem que ter uma boa dose de inconsciência. E de plasticidade.

Eu falo seis idiomas. Francês, créole de Guadeloupe, inglês, espanhol, holandês, português. Claro que tem interferências entre espanhol e português. Tanto que ando perdendo meu espanhol para português e que quase não sei me comunicar mais em holandês, língua que já dominei.

Estudei por um ano português na universidade Paris VII. Era apenas para poder viajar a Portugal e entender as letras de Gilberto Gil, Djavan, etc. Quando eu cheguei mesmo no Brasil foi dose. Português de Portugal e português do Brasil não são exatamente a mesma coisa. A língua travava e muito ! Mas com muita garrafa de Brahma, Skol, Pitu, Tatuzinho, e Antartica consegui destravar.

Aprendi muito português pela televisão. A Praça é Nossa com Carlos Alberto. Entender uma piada numa lingua estrangeira é uma delícia ! Já gostava dos bordões como : « se ela me desse bola » de Clementino (Tutuca)

a Escola do Professor Raimundo com Chico Anisio. Adorei os personagens : professor Raimundo Nonato, Dona Bela, Seu Boneco, Dona Cacilda, Joselino Barbacena, Armando Volta, Zé Bonitinho, Seu Batista, Galeão Cumbica, Dona Cândida, Pedro Pedreira, Aldemar Vigário, Dona Capitu, Marina da Glória, Nerso da Capitinga, Rolando Lero, Seu Peru, Catifunda, Baltazar da Rocha, Samuel Blaustein, Bertoldo Brecha, Suppapau Uaçu me ensinaram mais do que o dicionário Aurélio ! Ainda tenho em mente o bordão « ele so pensa naquilo » da Dona Bela.

Aprendi um bocado também sobre a situação política no Brasil e seus usos e costumes com Viva o Gordo de Jô Soares e seus múltiplos personagens : Araponga, Capitão Gay, Domingão, Zezinho, General Gutierrez, Julio Flores, Reizinho, Bô Francinede, Sebastião codinome Pierre, Dona Conceição, Zé da Galera, Dom Casqueta. Também gravei ali o bordão de Sebastião o exilado brasileiro na França que liga para o Brasil e que fala: « Não é possivel. Você não quer que eu volte ». Também fala barbarismos como seje, digue…

Também me formei pela universidade dos Trapalhões : Didi, Dedé, Mussum, Zaka foram ótimos professores.

O Show da Xuxa

Sergio Malendro

Sem Censura com Leda Nagle

Cassino do Chacrinha : Aprendi demais com aquele Velho Guerreiro cujo tema de abertura do programa era assim :

Abelardo Barbosa
Está com tudo e não está prosa

Menino levado da breca
Chacrinha faz chacrinha
Na buzina e discoteca

Ó Terezinha, ó Terezinha
é um barato o cassino do Chacrinha
Ó Terezinha, ó Terezinha
é um barato o cassino do Chacrinha

Vale a pena ver de novo e suas reprises de novelas como Irmãos Coragem, Dona Flor e seus deus maridos, Que rei sou eu, etc

Globo Rural e a música do tema por Almir Sater

Os rádios, o carnaval, a micareta, os cantores inúmeros e suas inúmeras músicas. Haja coração !

A revista Ciência Hoje, A Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, A Tarde, O Correio da Bahia, A Tribuna da Bahia, Feira Hoje, que eu comprava ou lia no Gabinete Português de Leitura em Salvador ou na Biblioteca Estadual de Feira de Santana foi lendo também que fui aprendendo. Também dançando, namorando, comendo, cozinhando, fazendo compras na feira, batendo papo, bebericando, assistindo filmes na cinemateca da Biblioteca Pública dos Barris,

Comprei também muitos livros de poesia brasileira. Tinha uma livraria Civilização Brasileira pertinho de onde eu morava em Salvador. Li muito mas muito mesmo ! Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Mario Quintana, Cecília Meirelles, João Cabral do Melo, Castro Alves, Gregório de Matos, Vinicius de Morais, Haroldo de Campos e alguns outros mas quem me seduziu mesmo foi Manoel de Barros (1916-2014) e sua « Gramática Expositiva do Chão » (1969) que até hoje me inspira. Eu lembro dele como de um poeta do graveto, da pedrinha, do insignificante, da poeira, quase invisível.

Também mergulhei na literatura de Jorge Amado, Mario de Andrade e seu Macunaima e tantos outros mas adorei foi o cinema de Glauber Rocha e seu Deus e o Diabo na Terra do Sol !

Todos os sobre citados foram meus exímios mestres : cada um fez sua parte sem se preocupar do papel que jogava e fiquei assimilando, assimilando.

Mas quero aqui dissertar um pouco não como linguista e specialista de idiomas francês mas como usuário do idioma português, além do mais o idioma português do Brasil, que não é minha língua materna mas que ficou a língua da madrasta.

Apesar de português e francês terem ambos a mesma matriz latina parece que tiveram pais diferentes. Em realidade são meio-irmãos. Vivem realidades diferentes.

Minha primeira dificulade com minha lingua irmã foi essa : ser e estar. Falaram assim : ser é pra estados ou ações definitivas, estar pra estados ou ações passageiros. E logo percebi que não era bem assim.

Ser casado tem nada a ver com ser doente, e ser apaixonado por música clássica não tem nada a ver com estar apaixonado por Benilde. O português tem uma sabedoria que o francês não tem. Sabe que paixão entre seres humanos não dura mas que paixão por idéias e prazeres é intemporal. Ou pelo menos finge de acreditar. Sou católico, sou crente, sou lulista. A realidade se mostra mais complexa. Alguém pode ter sido de esquerda e depois virar pra direita. Ou mudar de religião. Em francês o verbo ser se traduz por être, verbo auxiliar fundamental da língua francesa : être malade, être marié, être divorcé, être fiancé, être catholique, être protestant, être socialiste, être de droite.

O negócio complica mais ainda com ficar (que em francês se traduz geralmente como rester): ficar gravida, ficar noiva, ficar doente, ficar apaixonado, ficar com dor, ficar com fome, com frio, com calor, com vontade, com sede , com medo, aí o francês fica confuso. As vezes usa tomber (que se traduz normalmente por cair), às vezes usa avoir (ter, haver), outro auxiliar fundamental da língua de Molière. Isso quer dizer que para um francês adoecer, se apaixonar ou engravidar são vividas como quedas:

tomber enceinte, tomber malade, tomber amoureux vs avoir mal, avoir faim, avoir froid, avoir chaud, avoir envie, avoir soif, avoir peur…

Tem momentos que ninguém sabe pra onde correr. Estar errado, ser errado, ser certo, estar certo ! O francês fica em cima do muro e usa avoir: avoir tort, avoir raison.

Você ja nasceu errado , estar errado pra você é so uma aventura a mais ! brinca minha companheira

Haja pegadinhas entre o francês e o português ! Já é difícil imaginar o que é o futuro do subjuntivo. Quando eu for, se você quiser, assim que eu puder, logo que você souber, se não lhe incomodar, se tiver tempo, se for possivel, se Deus quiser para os quais o francês tem duas atitudes. Uma com quand, dès que, aussitôt que e os primos e amigos que chamam o futuro do indicativo : quand tu iras, quand tu voudras, dès que tu pourras, dès que tu sauras. Outra com si que chama neste caso o presente do indicativo: si ça ne te gêne pas, si tu as le temps, si c’est possible, si Dieu le veut.

Até para dizer por favor tem que usar si : s’il te plaît, s’il vous plaît ! (se não te incomodar, se lhe agradar). O si fica embutido no i do il, e este il mesmo não representa ninguém. Se trata de um il impessoal. Haja « politesse » !.

Este negócio de verbo impessoal em francês é meio chato. Il pleut, il neige, il fait chaud, il fait froid, il fait beau, il fait soleil, il fait noir, il fait bon, il fait, il faut.

Está chovendo, está nevando, faz calor, faz frio, faz tempo bom, faz sol, é escuro, faz bom, é preciso. Eita língua machista. O responsavel por todo aquilo é il, o pronome masculino da terceira pessoa do singular mas que pode ser neutro também como nestes inúmeros casos. Quer dizer que em francês o neutro é masculino.

Tudo isso para concordar com a regra que quer que todo verbo conjugado (com a exceçao do imperativo) tenha que ter um subjeto aparento, quando não tem tem que inventar e il é a pessoa então que faz a ação. Um deus ex máquina , provavelmente.

Mas a coisa complica porque tem também ce, que pode se abreviar en c’, pronome demonstrativo neutro, que pode representar este papel.

c’est gentil (é lindo), c’est super (é legal), c’est bon (é gostoso), c’est fantastique (é muito legal), c’est super (é bem legal), c’est moi (sou eu) e a forma generosa de ce c’est ça.

c’est quoi, ça. (O que é isso), ça va (ta indo), ça marche (tudo bem), ça caille (faz frio, ta pelando),

O português é como o inglês: tem acento tônico chato por toda parte. O francês em relação é bem simples, sempre na última sílaba. Mas primeiro pra identificar a última sílaba tem que eliminar toda sílaba que termina com e. Exemplo lune tem apenas uma sílaba oral apesar de ter duas sílabas gráficas. Indispensable se pronuncia in-dis-pen-sable e se presta bem atenção muita gente nem fala o fonema l final. Isso tem nada a ver com o português onde toda sílaba é pronunciada. Que alívio. Não é como em francês quando você nunca sabe se pode se pronunciar a consoante final

un pas, un cas, des tracas, compas, repas não se pronuncia o s final

Na palavra un os (osso) , fala-se o s final, na palavra dos (costas), não fala mas no plural os, a mesma palavra escrita se pronuncia sem o s final.

oeuf (ovo), boeuf (boi) no singular ouve se o som f . No plural desaparece este f e muda o som do eu que vem a soar como deux !

Mas o português do brasil tem suas chatices. Os r de rua, roer, e o rato roeu o rabo do rei de roma (foi assim que aprendi na marra esse trava-línguas, agora voltando atrás seria melhor roer a coroa, ou o coração, a cara, o couro, o rim, o trono, o carro, pior ainda o carro caro). O r brasileiro foi minha principal tortura. E até depois de mais de 30 anos de prática do idioma chego a tremer cada vez que eu peço suco de laranja. Mas não desanimo. Um dia chego lá ! No topo do morro morrerei dançando forró com minha eterna namorada segurando ela carinhosamente como uma garrafinha de suco de laranja!

O negócio complicado, quer dizer o mais complicado dois ainda muitos complicados, é como no caso do inglês onde colocar o acento tônico. Tem oxitonas, paroxitonas, proparoxitonas e sei lá quantos mais tonas. Deus é mais ! E como em inglês tem a regra e as exceções que confirmam a regra. Eu duvido se fala assim insistindo na sílaba vi mas não precisa de acento para materializar o acento tônico. Mas tenho minhas dúvidas, preciso mudar o stress para a primeira sílaba. Isso eu internalizei à força de ouvir ou de levar porrada.

Demorei para entender a diferença entre o o aberto de avo (grand-mère) et o o fechado de avô (grand père) e ainda hoje não sinto a diferença. Já me explicaram várias vezes a acentuação gráfica mas meu ouvido parece que fica surdo em entender as diferenças entre carne de boi e um motoboy. Não sei mas se falo certo falando oi pelo cual uso o oi do inglês voice. Eu já internalizei que ou se fala o como o moto, loto, bobo francês e não como o o com acento dos coto, bobo brasileiros. Mas toda palavra que tem a mesma grafia em português que em francês posa problema . Eu sei que moto não se fala moto como en francês, igual para loto, bobo de camarão, alho porro não se fala como poireau, já sei,

a que hora é ? que horas são ? São nove horas, é uma hora. Minha tendência, ja que em francês so se fala il est cinq heures, il est midi, é de usar em português sempre são para não me complicar. Já me falaram tanto que é que horas são, já ouvi muito que hora é essa mas o cérebro insiste em dizer são uma hora! Barbarismo feio, né !

Eu assim falo são uma hora e sou (ou estou) errado. Erradissimo ! Principalmente para alguém que passou mais de 15 anos no Brasil convivendo com brasileiros hà mais de 30 anos ! Posso falar com toda sem vergonhice é quatro da manha. Em vez do certo e legítimo : são quatro da manha. Até eu fico me perdendo. Agora é comum ouvir essa coisa errada entre brasileiros. Alivia um pouco a dor mas não sara a raiva ! é isso que me complica ainda mais ainda. Bem sei que ser comum não quer dizer ser correto. Mas quero comunicar.

Já sei que que nem não é muito bom mas ja ouvi falar tanto que virou minha maneira de ser baiano.

Usando palavras ou expressões como eita, Deus é mais, é foda, porra, né, ta, veja bem, digai, ta vendo, da pra entender, sacou ?, caiu minha ficha, vixe, opaio,

Tinha muitas dificuldades em entender a diferença entre aqui, cá, la , ali e aí. Porque em francês apesar de ter ici et (là-bas) não tem lugares intermediários bem definidos. ici quer dizer aqui e quer dizer lá. Em princípio. Na realidade pouco importa a distança, geralmente a palavra utilizada vai ser lá.

Exemplo: alguém bate na porta. Vou até a porta e vou falar: qui est là ? e a pessoa fica talvez a 20 centimetros da porta.

Se eu entendi bem a gradação brasileira vai de aqui, aí, ali, lá. Para entender cá tem que utilizar a expressao lá e cá. vem cá ! Só que até agora não entendi a diferença entre vem cá e vem aí ou vem aqui. Mas gosto demais de usar vem cá. Em francês poderia se traduzir por perifrase viens voir, viens ici, viens là, pouco importa. De lá pra cá eu usaria em relação ao tempo. Entre 1986 que foi minha vez no Brasil e agora 2018, de lá pra cá, muita coisa mudou là como cá ! No Brasil como na França.

Houve um tempo que o povo falava Lula là ! agora fala Lula pra aqui Lula pra lá, Lula pra cá, Lula ali, Lula aí ! Um dia chego lá !