Noblesse de canne oblige !

No Brasil vinho é sofisticação pura, coisa de gente chique, dádiva de elite ! Esse povo abençoado costuma falar assim : « Sou mais Syrah, ou sou mais Pinot noir, ou sou mais Cabernet Sauvignon » e assim por diante e adora a palavra harmonização . Eu aí, como francês de plantão, ficava calado porque não conseguia dizer sou mais isso ou aquilo me referindo a cepas. Eu falava assim que eu era mais Bourgogne ou Côtes-du-Rhône e pronto. Claro que bebo todas, que nem cerveja, né. Comigo não tem frescura retronasal. Pode se dizer que meu gosto é uma herança do meu pai, da minha mãe, das namoradas que eu tive (influência, sim), dos amigos que eu frequentei, das comidas que eu cozinhei e da harmonização vins-mets que eu vi praticar no meu dia a dia durante mais de 50 anos e dos hábitos dos países que eu morei…

Apesar de ser mais povão em absoluto, na prática pode me chamar de Marquis Gros-Rouge de Préfontaines. Nobreza de cana e outra coisa, outro departamento. Gosto de garrafas com estrelas no goulot. Nunca provei um Romanée-Conti, nem Vosne-Romanée premier cru, nem Monrachet grand cru, nem um Côtes de Nuits. Todos são Bourgogne mas uma garrafa de Romanée Conti grand cru custa 12000 € a garrafa de 75 cl. Calcule o valor do centilitro.

Não sou nenhum dégustateur, sou tabaréu mesmo, não sou nenhum escansão e não ando de nariz empinado com boladeira. Não sou nenhum sommelier, não tenho pedigree, não tenho etiqueta, paladar, papilas gustativas, não cheiro rolhas de cortiça, não olho a cor do robe dele, não faço respirar o vinho, não decanto nada em decanter de cristal de Sèvres. Não ligo com milésimo, safra, não ligo com rótulo . Fique com seu sirah fique com seu merlot, guarde bem guardado seu cabernet, eu sou Marquis Gros-Rouge de Préfontaines. Gosto de garrafas de vidro com goulot de estrelas.

Sou nenhum oenophile, nenhum œnologue, nenhum tastevin. Só não bebo vinho bouchonné . Se tenho algum título é de ser cachaceiro alegre : j’ai le vin gai. Nada de gay, viu, com todo respeito a essa nação arco-íris. Ter o vin gai quer dizer que a pessoa bebe e fica engraçada. Claro que se bebe todas vai « gerber » quer dizer vomitar tudo pra fora. Mas dificilmente chego a este ponto. Sei beber. Sou bon vivant, pinguço epicuriano mas sei meus limites. Quando às vezes, raramente, ultrapasso meus limites, caio no sono e pronto. Acordo o dia seguinte com a boca seca e pastosa querendo mais uma gotinha. Pinguço é assim mesmo, vai fazer o quê, é genético. Aliás pra beber tem que saber comer. A comida engrandece a bebida apesar do que meu amigo falecido Jaldo da Bahia dizia sempre. Ele falava assim em relação a cerveja : a comida entristece a bebida. Eu penso totalmente diferente. A comida torna alegre a bebida. No meu caso pelo menos. Quando sou de barriga cheia não bebo mais. Tem gente que tem o vinho triste e desses fujo como da peste ! Mas voltando ao que interessa, basicamente pode se dizer que eu gosto do que eu compro para mim ou para oferecer aos outros, né. Agora já que eu gosto mais de Bourgogne rouge eu poderia dizer que nos vinhos tintos eu gosto de pinot noir, chardonnay, aligoté e gamay. Já que eu gosto de Gewurstraminer nos vinhos brancos poderia dizer que gosto da cepa Gewurstraminer. Já que gosto de moscatel efervescente poderia se dizer que eu estou mais afinado com a cepa muscat petit grain, e ja que em licorosos da região de Bordeaux eu amo especialmente o Sauternes poderia se dizer que gosto nesta categoria de sémillon, sauvignon, muscadelle et sauvignon gris. Agora tenho nada contra um bordeaux rouge a base de merlot, cabernet sauvignon e cabernet franc. Me dê uma garrafa que eu bebo ela todinha; não vai sobrar uma gotinha ! Tenho nada contra um Bordeaux blanc seco a base de semillon et de sauvignon. Chupo que nem mamadeira de leite orgânico . Às vezes compro quando tem uma promoção , até ! Tenho nada contra champagnes franceses, proseccos italianos, cavas espanhois, « peu importe le vin, pourvu qu’on ait l’ivresse ». Mais toujours à déguster avec modération ! Mas com certeza agora que estou morando na região de Bordeaux eu faço questão de beber só Bordeaux. Afinal o vinhedo de Bordeaux não é nada a ser desprezado com mais de 10000 châteaux segundo a Union des Grands Crus de Bordeaux e 57 denominações ! Este vinhedo é maior do que o vinhedo todo da Australia ou idêntico se quiser en área de plantio ao vinhedo cumulado de Côtes du Rhône, Alsace e Loire (Muscadet, Anjou e Saumur). Vamos prestigiar, né ! Mas primeiro, noblesse de canne oblige, sou ousado. Por isso gosto de tomar antes de beber vinho um gole daquele cocktail, meu rei, uma dose dupla de B & B ! Benedictine & Brandy ! 40 pour cent de cognac et 60 pour cent de Bénédictine. Não havendo cognac à disposição pode substituir por qualquer cachaça envelhecida. Depois disso não tem picrate que resiste! Não tem gros-rouge-qui-tâche que detone!

Não vou te enganar não bebo de nariz e sou marquis Gros-Rouge de Préfontaines. Aliás o primeiro vinho que cheguei a beber quando eu era menininho foi Préfontaines. Era um vinho de mesa (vin de table) bem popular dos anos 50-60 que meu pai costumava comprar para o dia a dia dele. Porque ele usava vinho em tudo, jogava vinho até em sopa, pot-au-feu e sem vinho não tinha almoço nem janta certa. Não sei quantas vezes eu ia pra vendinha comprar para ele uma garrafa de Préfontaines. Eu gostava de ir comprar porque tinha um selo que se decolava do rótulo da garrafa e que colava numa caderneta. Com esse selo chamado point-cadeau podia ganhar muitos presentes.

As garrafas naquele tempo eram de vidro e tinham estrelas na parte superior do pescoço, o goulot. Eu me lembro que tinha que trazer de volta as garrafas para recuperar a consigne. Tinha outros vinhos Le Postillon, Vin des Rochers, Gévéor, Granvillons. Esses eram de garrafa de vidro. Nada de rolha. Geralmente era tampa de plástico colorido.

Sabe o que?! Prefontaines nunca foi tido por ninguém como vinho haut de gamme mas sinto saudade das minhas estrelinhas.