Esclavage, vice-championne du carnaval de Rio 2018

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Il y a de cela presque 130 ans le 13 mai 1888 la loi Aurea était promulguée au Brésil par la princesse régente Isabel. Elle avait été précédée en 1871 par la loi du ventre libre qui déclarait libres les enfants nés d’esclaves. Avec cette loi l’esclavage était aboli. Le G.R.E.S Paraiso do Tuiuti,  originaire de la favela du même nom dans le quartier de São Cristovão, vice-championne du carnaval 2018, a enchanté les tribunes au moment du défilé des écoles de samba sur l’avenue Marques de Sapucai avec cette question qui taraude encore de nombreux Brésiliens de toutes couleurs. Quelle que soit la teinte de l’arc-en-ciel qui nous caractérise la question posée est : »Mon dieu, Mon dieu, l’esclavage est-il aboli? »

L’esclavage était donc le thème du défilé  avec cette question Meu Deus, meu Deus Esta extinta a escravidão ? L’esclavage est-il éteint ? Le seul fait de se poser la question en 2018 interroge au Brésil comme elle interroge dans de nombreux pays à travers le monde des Etats-Unis aux Antilles. Si on se pose la question c’est qu’elle n’est pas résolue ! Par ailleurs une nouveauté : une femme Grazzi Brasil chantant le thème d’ouverture.

Les compositeurs Claudio Russo, Moacyr Luz, Dona Zezé, Jurandir et Aníbal, ont fait une nouvelle narration de l’histoire de l’esclavage au Brésil à travers leurs 29 ailes (asas) montrant l’exploitation de l’homme par l’homme sous toutes ses formes aussi bien dans le champ rural que dans le domaine urbain, dans les quilombos et senzalas d’aujourd’hui, les favelas, désormais appelées pieusement de communautés (comunidades) où règnent tous les trafics (rogues, sexe, armes) et l’insécurité à tel point que juste après le carnaval les troupes militaires fédérales sont intervenues et ont assumé le pouvoir de police à Rio de Janeiro. Un défilé à forte connotation politique donc puisque les réformes engagées par le président Temer sont caractérisées comme un recul, un retour en arrière vers  des pratiques anciennes  datant de la Colonie et de l’Empire où la préservation du système esclavagiste et la surexploitation du travail était la principale caractéristique des élites économiques. Récemment les lois rétrogrades gouvernant le travail ont été promulguées et les conditions pour dénoncer un travail esclave renforcées donnant naissance à ce qu’on peut appeler un esclavage social.

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Bien que beaucoup d’historiens expliquent que la corruption est un des piliers du brésil d’autres comme Luiz Felipe de Alencastro  (voir son ouvrage Trato dos viventes) affirment que l’esclavage est le pilier de la formation historique brésilienne car l’empire portugais d’outre mer n’a pu se former que par et grâce à la traite négrière et la construction de réseaux commerciaux dans l’Atlantique Sud.

Que disent les paroles :

Não sou escravo de nenhum senhor
Meu Paraíso é meu bastião
Meu Tuiuti o quilombo da favela
É sentinela da libertação

Irmão de olho claro ou da Guiné
Qual será o seu valor? Pobre artigo de mercado
Senhor eu não tenho a sua fé, e nem tenho a sua cor
Tenho sangue avermelhado
O mesmo que escorre da ferida
Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar a escravidão e um prato de feijão com arroz

Eu fui mandinga, cambinda, haussá
Fui um rei egbá preso na corrente
Sofri nos braços de um capataz
Morri nos canaviais onde se plantava gente

Ê calunga! Ê ê calunga!
Preto Velho me contou, Preto Velho me contou
Onde mora a senhora liberdade
Não tem ferro, nem feitor

Amparo do rosário ao negro Benedito
Um grito feito pele de tambor
Deu no noticiário, com lágrimas escrito
Um rito, uma luta, um homem de cor

E assim, quando a lei foi assinada
Uma lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea feito o ouro da bandeira
Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel

Meu Deus! Meu Deus!
Se eu chorar não leve a mal
Pela luz do candeeiro
Liberte o cativeiro social

 

 

Moi j’aurais une lecture un peu différente et à l’esclavage social j’ajouterais l’esclavage religieux. D’ailleurs dans le titre on voit bien les références religieuses de toutes origines : Meu Deus, meu Deus , Fui rezar na cachoeira, Amparo o rosario ao negro Benedito, preto velho, não tenho a sua fé, irmão, meu paraiso é meu bastião. Nao sou escravo de nenhum senhor pourrait sembler équivoque. En voulant signifier qu’on n’est esclave d’aucun maître d’aucun seigneur on n’épouse pas les idées anarchistes « ni dieu ni maître » et on accepte justement les théories religieuses qui ont justifié pendant des siècles l’esclavage. En d’autres mots l’esclavage continue parce que entre autres choses le joug des dieux reste permanent sur l’âme des damnés ! Et ce joug-la, cette exploitation de l’homme par les dieux et leurs représentants auto-proclamés sur terre, qu’ils soient rois, princes ou présidents, on n’en verra pas e sitôt la fin ! La libération de cette captivité n’est pas une question de larmes mais une question d’action, de révoltes. Les carnavals sont télévisés mais comme disait Gil Scott Heron : the revolution will not be televised

 

 

Saldanha, Piber e Boff : 3 anos depois do seu « Je ne suis pas charlie »

Isso aconteceu bem antes dos atentados de 14 novembro 2015 (Bataclan, e vizinhanças  em Paris, stade de France em Saint Denis, etc), Nice (julho 2016) Marseille (1 outubro 2017), Saint-Etienne de Rouvray (26 julho 2017) , Champs Elysées (duas vezes), Saint-Quentin Follavier, Dammartin-en-Goele, etc .

Isso aconteceu dia 12 de janeiro de 2015, ha três anos atras, logo depois dos atentados de Charlie Hebdo em Paris dia 7 de janeiro, da morte da policial caribenha em Montrouge no dia 8 de janeiro e dos mortos do hiper mercado cacher em Paris porte de Vincennes no dia 9 de janeiro 2015.

Isso aconteceu no dia 12 de janeiro de 2015 quando 44 chefes de Estado vieram desfilar com a multidão e dizer je suis charlie, Nesse dia  li na internet um artigo no blog do Leonardo Boff datado do dia 9 de janeiro  :

Para se entender o terrismo contra o Charlie Hebbo de Paris

09/01/2015

        Uma coisa é se indignar, com toda razão, contra o ato terrorisa que dizimou os melhores chargistas franceses. Trata-se de ato abominável e criminoso, impossível de ser apoiado por quem quer que seja.

Outra coisa é procurar analiticamente entender porque tais eventos terroristas acontecem. Eles não caem do céu azul. Atrás deles há um céiu escuro, feito de histórias trágicas, matanças massivas, humilhações e discriminações, quando não, de verdadeiras guerras preventivas que sacrificaram vidas de milhares e milhares de pessoas.

Nisso os USA e em geral o Ocidente são os primeiros. Na França vivem cerca de cinco milhões de muçulmanos, a maioria nas periferias em condições precárias. São altamente discriminados a ponto de surgir uma verdadeira islamofobia.

Logo após o atentado aos escritórios do Charlie Hebdo, uma mesquita foi atacada com tiros, um restaurante muçulmano foi incendiado e uma casa de oração islâmica foi atingida também por tiros.

Que signfica isso? O mesmo espírito que provocou a tragédia contra os chargistas, está igualmente presente nesses franceses que cometeram atos violentos às instituições islâmicas. Se Hannah Arendt estivesse viva, ela que acompanhou todo o julgamento do criminoso nazista Eichmann, faria semelhante comentário, denunciando este espírito vingativo.

Trata-se de superar o espírito de vingança e de renunciar à estratégia de enfrentar a violência com mais violência. Ela cria uma espiral de violência interminável, fazendo vítimas sem conta, a maioria delas inocentes.

Paradigmático foi o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 contra os Estados Unidos. A reação do Presidente Bush foi declarar a “guerra infinita” contra o terror; instituir o “ato patriótico” que viola direitos fundamentais ao permitir prender, sequestrar e submeter a afogamentos a suspeitos; criar 17 agências de segurança em todo o país e começar a espionar todo mundo no mundo inteiro, além de submeter terroristas e suspeitos em Guantánamo a condições desumanas e a torturas.

O que os USA e aliados ocidentais fizeram no Iraque foi uma guerra preventiva com uma mortandade de civis incontável. Se no Iraque houvesse somente ampla plantação de frutas e cítricos, nada disso ocorreria. Mas lá há muitas reservas de petróleo, sangue do sistema mundial de produção.

Tal violência barbárica, porque destruíu os monumentos de uma das mais antigas civilizações da humanidade, deixou um rastro de raiva, de ódio e de vontade de vingança.

A partir deste transfundo, se entende que o atentado abominável em Paris é resultado desta violência primeira e não causa originária. O efeito deste atentado é instalar o medo em toda a França e em geral na Europa. Esse efeito é visado pelo terrorismo: ocupar as mentes das pessoas e mantê-las reféns do medo.

O significado principal do terroismo não é ocupar territórios, como o fizeram os ocidentais no Afeganistão e no Iraque, mas ocupar as mentes. Essa é sua vitória sinistra.

A profecia do autor intelectual dos atentados de 11 de setembro, o então ainda não assassinado Osama Bin Laden, feita no dia  8 de outubro de 2001, infelizmente, se realizou: “Os EUA nunca mais terão segurança, nunca mais terão paz”.

Ocupar as mentes das pessoas, mantê-las desestabilizadas emocionalmente, obrigá-las a desconfiar de qualquer gesto ou de pessoas estranhas, eis o que o terrorismo almeja e nisso reside sua essência. Para alcançar seu objetivo de dominação das mentes, o terrorismo persegue a seguinte estratégia:

(1) os atos têm de ser  espetaculares, caso contrário, não causam comoção generalizada;

(2) os atos, apesar de odiados, devem provocar admiração pela sagacidade empregada;

(3) os atos devem sugerir que foram minuciosamente preparados;

(4) os atos devem ser imprevistos para darem a impressão de serem incontroláveis;

(5) os atos devem ficar no anonimato dos autores (usar máscaras) porque quanto mais suspeitos, maior o medo;

(6) os atos devem provocar permanente medo;

(7) os atos devem distorcer a percepção da realidade: qualquer coisa diferente pode configurar o terror. Basta ver alguns rolezinhos entrando nos shoppings e já se projeta a imagem de um assaltante potencial.

Formalizemos um conceito do terrorismo: é toda  violência espetacular, praticada com o propósito de ocupar as mentes com  medo e pavor.         

O importante não é a violência em si,  mas seu caráter espetacular, capaz de dominar as mentes de todos. Um dos efeitos mais lamentáveis do terrorismo foi ter suscitado o Estado terrorista que são hoje os EUA. Noam Chomsky cita um funcionário dos órgãos de segurança norte-americano que confessou: “Os USA são um Estado terrorista e nos orgulhamos disso”.

Oxalá não predomine no mundo, especialmente, no Ocidente este espírito. Aí sim, iremos ao encontro do pior. Leonardo

Boff é colunista do JBonline e escreveu: Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz,  Vozes,  Petrópolis 2009.

E no dia seguinte repassou um artigo cuja autoria era o padre antonio piber, téologo e historiador

Eu não sou Charlie, je ne suis pas Charlie: Pe. Antonio Piber

10/01/2015
Houve um esquecimento de minha parte: não citei o nome do artigo publicado abaixo: Pe.Antonio Piber, material que recebi via internet (quatremains). Peço desculpas aos leitores/as.

Há muita confusão acerca do atentado terrorista em Paris, matando vários cartunistas. Quase só se ouve um lado e não se buscam as raízes mais profundas deste fato condenável mas que exige uma interpretação que englobe seus vários aspectos, ocultados pela midia internacional e pela comoção legítima face a este ato criminoso. Mas ele é uma resposta a algo que ofendia milhares de fiéis muçulmanos. Evidentemente não se responde com o assassinato. Mas também não se devem criar as condições psicológicas e políticas que levem a alguns radicais a lançarem mão de meios reprováveis sobre todos os aspectos. Publico aqui um texto de um padre, Antonio Piber, que é teóloogo e historiador e conhece bem a situação da França atual. Ele nos fornece dados que muitos talvez não os conheçam. Suas reflexões nos ajudam a ver a complexidade deste anti-fenômeno com suas aplicações também à situação no Brasil: Lboff

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Eu condeno os atentados em Paris, condeno todos os atentados e toda a violência, apesar de muitas vezes xingar e esbravejar no meio de discussões, sou da paz e me esforço para ter auto controle sobre minhas emoções…

Lembro da frase de John Donne: “A morte de cada homem diminui-me, pois faço parte da humanidade; eis porque nunca me pergunto por quem dobram os sinos: é por mim”. Não acho que nenhum dos cartunistas “mereceu” levar um tiro, ninguém o merece, acredito na mudança, na evolução, na conversão. Em momento nenhum, eu quis que os cartunistas da Charlie Hebdo morressem. Mas eu queria que eles evoluíssem, que mudassem… Ainda estou constrangido pelos atentados à verdade, à boa imprensa, à honestidade, que a revista Veja, a Globo e outros veículos da imprensa brasileira promoveram nesta última eleição.

A Charlie Hebdo é uma revista importante na França, fundada em 1970, é mais ou menos o que foi o Pasquim. Isso lá na França. 90% do mundo (eu inclusive) só foi conhecer a Charlie Hebdo em 2006, e já de uma forma bastante negativa: a revista republicou as charges do jornal dinamarquês Jyllands-Posten (identificado como “Liberal-Conservador”, ou seja, a direita europeia). E porque fez isso? Oficialmente, em nome da “Liberdade de Expressão”, mas tem mais…

O editor da revista na época era Philippe Val. O mesmo que escreveu um texto em 2000 chamando os palestinos (sim! O povo todo) de “não-civilizados” (o que gerou críticas da colega de revista Mona Chollet (críticas que foram resolvidas com a demissão sumaria dela). Ele ficou no comando até 2009, quando foi substituído por Stéphane Charbonnier, conhecido só como Charb. Foi sob o comando dele que a revista intensificou suas charges relacionadas ao Islã, ainda mais após o atentado que a revista sofreu em 2011…

A França tem 6,2 milhões de muçulmanos. São, na maioria, imigrantes das ex-colônias francesas. Esses muçulmanos não estão inseridos igualmente na sociedade francesa. A grande maioria é pobre, legada à condição de “cidadão de segunda classe”, vítimas de preconceitos e exclusões. Após os atentados do World Trade Center, a situação piorou.

Alguns chamam os cartunistas mortos de “heróis” ou de os “gigantes do humor politicamente incorreto”, outros muitos os chamam de “mártires da liberdade de expressão”. Vou colocar na conta do momento, da emoção. As charges polêmicas do Charlie Hebdo, como os comentários políticos de colunistas da Veja, são de péssimo gosto, mas isso não está em questão. O fato é que elas são perigosas, criminosas até, por dois motivos.

O primeiro é a intolerância. Na religião muçulmana, há um princípio que diz que o Profeta Maomé não pode ser retratado, de forma alguma. Esse é um preceito central da crença Islâmica, e desrespeitar isso desrespeita todos os muçulmanos. Fazendo um paralelo, é como se um pastor evangélico chutasse a imagem de Nossa Senhora para atacar os católicos…
Qual é o objetivo disso? O próprio Charb falou: “É preciso que o Islã esteja tão banalizado quanto o catolicismo”. “É preciso” porque? Para que?

Note que ele não está falando em atacar alguns indivíduos radicais, alguns pontos específicos da doutrina islâmica, ou o fanatismo religioso. O alvo é o Islã, por si só. Há décadas os culturalistas já falavam da tentativa de impor os valores ocidentais ao mundo todo. Atacar a cultura alheia sempre é um ato imperialista. Na época das primeiras publicações, diversas associações islâmicas se sentiram ofendidas e decidiram processar a revista. Os tribunais franceses, famosos há mais de um século pela xenofobia e intolerância (ver Caso Dreyfus), como o STF no Brasil, que foi parcial nas decisões nas últimas eleições e no julgar com dois pessoas e duas medidas caos de corrupção de políticos do PSDB ou do PT, deram ganho de causa para a revista.

Foi como um incentivo. E a Charlie Hebdo abraçou esse incentivo e intensificou as charges e textos contra o Islã e contra o cristianismo, se tem dúvidas, procure no Google e veja as publicações que eles fazem, não tenho coragem de publicá-las aqui…

Mas existe outro problema, ainda mais grave. A maneira como o jornal retratava os muçulmanos era sempre ofensiva. Os adeptos do Islã sempre estavam caracterizados por suas roupas típicas, e sempre portando armas ou fazendo alusões à violência, com trocadilhos infames com “matar” e “explodir”…). Alguns argumentam que o alvo era somente “os indivíduos radicais”, mas a partir do momento que somente esses indivíduos são mostrados, cria-se uma generalização. Nem sempre existe um signo claro que indique que aquele muçulmano é um desviante, já que na maioria dos casos é só o desviante que aparece. É como se fizéssemos no Brasil uma charge de um negro assaltante e disséssemos que ela não critica/estereotipa os negros, somente aqueles negros que assaltam…

E aí colocamos esse tipo de mensagem na sociedade francesa, com seus 10% de muçulmanos já marginalizados. O poeta satírico francês Jean de Santeul cunhou a frase: “Castigat ridendo mores” (costumes são corrigidos rindo-se deles). A piada tem esse poder. Mas piada são sempre preconceituosas, ela transmite e alimenta o preconceito. Se ela sempre retrata o árabe como terrorista, as pessoas começam a acreditar que todo árabe é terrorista. Se esse árabe terrorista dos quadrinhos se veste exatamente da mesma forma que seu vizinho muçulmano, a relação de identificação-projeção é criada mesmo que inconscientemente. Os quadrinhos, capas e textos da Charlie Hebdo promoviam a Islamofobia. Como toda população marginalizada, os muçulmanos franceses são alvo de ataques de grupos de extrema-direita. Esses ataques matam pessoas. Falar que “Com uma caneta eu não degolo ninguém”, como disse Charb, é hipócrita. Com uma caneta se prega o ódio que mata pessoas…

Uma das defesas comuns ao estilo do Charlie Hebdo é dizer que eles também criticavam católicos e judeus…
Se as outras religiões não reagiram a ofensa, isso é um problema delas. Ninguém é obrigado a ser ofendido calado.
“Mas isso é motivo para matarem os caras!?”. Não. Claro que não. Ninguém em sã consciência apoia os atentados. Os três atiradores representam o que há de pior na humanidade: gente incapaz de dialogar. Mas é fato que o atentado poderia ter sido evitado. Bastava que a justiça tivesse punido a Charlie Hebdo no primeiro excesso, assim como deveria/deve punir a Veja por suas mentiras. Traçasse uma linha dizendo: “Desse ponto vocês não devem passar”.

“Mas isso é censura”, alguém argumentará. E eu direi, sim, é censura. Um dos significados da palavra “Censura” é repreender. A censura já existe. Quando se decide que você não pode sair simplesmente inventando histórias caluniosas sobre outra pessoa, isso é censura. Quando se diz que determinados discursos fomentam o ódio e por isso devem ser evitados, como o racismo ou a homofobia, isso é censura. Ou mesmo situações mais banais: quando dizem que você não pode usar determinado personagem porque ele é propriedade de outra pessoa, isso também é censura. Nem toda censura é ruim…

Deixo claro que não estou defendendo a censura prévia, sempre burra. Não estou dizendo que deveria ter uma lista de palavras/situações que deveriam ser banidas do humor. Estou dizendo que cada caso deveria ser julgado. Excessos devem ser punidos. Não é “Não fale”. É “Fale, mas aguente as consequências”. E é melhor que as consequências venham na forma de processos judiciais do que de balas de fuzis ou bombas.

Voltando à França, hoje temos um país de luto. Porém, alguns urubus são mais espertos do que outros, e já começamos a ver no que o atentado vai dar. Em discurso, Marine Le Pen declarou: “a nação foi atacada, a nossa cultura, o nosso modo de vida. Foi a eles que a guerra foi declarada”. Essa fala mostra exatamente as raízes da islamofobia. Para os setores nacionalistas franceses (de direita, centro ou esquerda), é inadmissível que 10% da população do país não tenha interesse em seguir “o modo de vida francês”. Essa colônia, que não se mistura, que não abandona sua identidade, é extremamente incômoda. Contra isso, todo tipo de medida é tomada. Desde leis que proíbem imigrantes de expressar sua religião até… charges ridicularizando o estilo de vida dos muçulmanos! Muitos chargistas do mundo todo desenharam armas feitas com canetas para homenagear as vítimas. De longe, a homenagem parece válida. Quando chegam as notícias de que locais de culto islâmico na França foram atacados, um deles com granadas!, nessa madrugada, a coisa perde um pouco a beleza. É a resposta ao discurso de Le Pen, que pedia para a França declarar “guerra ao fundamentalismo” (mas que nos ouvidos dos xenófobos ecoa como “guerra aos muçulmanos”, e ela sabe disso).

Por isso tudo, apesar de lamentar e repudiar o ato bárbaro do atentado, eu não sou Charlie. Je ne suis pas Charlie.

 

Finalmente dia 10 ele mandou a versão original do Saldanha so que o link para ler o original no site do autor foi dado errado (deu emtomdemimi.blogspot.com em vez de emtomdemimimi.blogspot.com

Je ne suis pas Charlie: El Rafo Saldanha, verdadeiro autor

10/01/2015

Nos envios anteriores este artigo saiu sem o nome do autor, por distração minha. Vinha num e-mail quatremains@uol.com.br e era atribuido ao Pe. Antonio Piber. Posteriormente coloquei o nome do Pe. Antonio Piber. Por fim vim a saber que o verdadeiro autor é o jornalista Rafo Saldanha. Encontra-se no seu blog:emtomdemimi.blogspot.com.br/2015/01 je-ne-suis-pas-charlie.html  Aqui vai o texto original sem os acréscimos feitos pelo Pe. Antonio Piber.  Havia duas charges do Charlie Hebdo que não puderam aparecer neste meu texto. Mas podem ser vistas no referido blog. Peço a compreensão de todos: Lboff

El Rafo Saldanha

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Je ne suis pas Charlie

Em primeiro lugar, eu condeno os atentados do dia do 7 de janeiro. Apesar de muitas vezes xingar e esbravejar no meio de discussões, sou um cara pacífico. A última vez que me envolvi em uma briga foi aos 13 anos (e apanhei feito um bicho). Não acho que a violência seja a melhor solução para nada. Um dos meus lemas é a frase de John Donne: “A morte de cada homem diminui-me, pois faço parte da humanidade; eis porque nunca me pergunto por quem dobramos sinos: é por mim”. Não acho que nenhum dos cartunistas “mereceu” levar um tiro. Ninguém merece. A morte é a sentença final, não permite que o sujeito evolua, mude. Em momento nenhum, eu quis que os cartunistas da Charlie Hebdo morressem. Mas eu queria que eles evoluíssem, que mudassem.

Após o atentado, milhares de pessoas se levantaram no mundo todo para protestar contra os atentados. Eu também fiquei assustado, e comovido, com isso tudo. Na internet, surgiu o refrão para essas manifestações: Je Suis Charlie. E aí a coisa começou a me incomodar.

A Charlie Hebdo é uma revista importante na França, fundada em 1970 e identificada com a esquerda pós-68. Não vou falar de toda a trajetória do semanário. Basta dizer que é mais ou menos o que foi o nosso Pasquim. Isso lá na França. 90% do mundo (eu inclusive) só foi conhecer a Charlie Hebdo em 2006, e já de uma forma bastante negativa: a revista republicou as charges do jornal dinamarquês Jyllands-Posten (identificado como “Liberal-Conservador”, ou seja, a direita européia). E porque fez isso? Oficialmente, em nome da “Liberdade de Expressão”, mas tem mais…

O editor da revista na época era Philippe Val. O mesmo que escreveu um texto em 2000 chamando os palestinos (sim! O povo todo) de “não-civilizados” (o que gerou críticas da colega de revista Mona Chollet – críticas que foram resolvidas com a saída dela). Ele ficou no comando até 2009, quando foi substituído por Stéphane Charbonnier, conhecido só como Charb. Foi sob o comando dele que a revista intensificou suas charges relacionadas ao Islã – ainda mais após o atentado que a revista sofreu em 2011.

Uma pausa para o contexto. A França tem 6,2 milhões de muçulmanos. São, na maioria, imigrantes das ex-colônias francesas. Esses muçulmanos não estão inseridos igualmente na sociedade francesa. A grande maioria é pobre, legada à condição de “cidadão de segunda classe”. Após os atentados do World Trade Center, a situação piorou. Já ouvi de pessoas que saíram de um restaurante “com medo de atentado” só porque um árabe entrou. Lembro de ter lido uma pesquisa feita há alguns anos (desculpem, não consegui achar a fonte) em que 20 currículos iguais eram distribuídos por empresas francesas. Eles eram praticamente iguais. A única diferença era o nome dos candidatos. Dez eram de homens com sobrenomes franceses, ou outros dez eram de homens com sobrenomes árabes. O currículo do francês teve mais que o dobro de contatos positivos do que os do candidato árabe. Isso foi há alguns anos. Antes da Frente Nacional, partido de ultra-direita de Marine Le Pen, conquistar 24 cadeiras no parlamento europeu…

De volta à Charlie Hebdo: Ontém vi Ziraldo chamando os cartunistas mortos de “heróis”. O Diário do Centro do Mundo (DCM) os chamou de“gigantes do humor politicamente incorreto”. No Twitter, muitos chamaram de “mártires da liberdade de expressão”. Vou colocar na conta do momento, da emoção. As charges polêmicas do Charlie Hebdo são de péssimo gosto, mas isso não está em questão. O fato é que elas são perigosas, criminosas até, por dois motivos.

O primeiro é a intolerância. Na religião muçulmana, há um princípio que diz que o profeta Maomé não pode ser retratado, de forma alguma. (Isso gera situações interessantes, como o filme A Mensagem – Ar Risalah, de 1976 – que conta a história do profeta sem desrespeitar esse dogma – as soluções encontradas são geniais!). Esse é um preceito central da crença Islâmica, e desrespeitar isso desrespeita todos os muçulmanos. Fazendo um paralelo, é como se um pastor evangélico chutasse a estátua de Nossa Senhora para atacar os católicos. O Charlie Hebdo publicou a seguinte charge:

Qual é o objetivo disso? O próprio Charb falou: “É preciso que o Islã esteja tão banalizado quanto o catolicismo”. Ok, o catolicismo foi banalizado. Mas isso aconteceu de dentro pra fora. Não nos foi imposto externamente. Note que ele não está falando em atacar alguns indivíduos radicais, alguns pontos específicos da doutrina islâmica, ou o fanatismo religioso. O alvo é o Islã, por si só. Há décadas os culturalistas já falavam da tentativa de impor os valores ocidentais ao mundo todo. Atacar a cultura alheia sempre é um ato imperialista. Na época das primeiras publicações, diversas associações islâmicas se sentiram ofendidas e decidiram processar a revista. Os tribunais franceses – famosos há mais de um século pela xenofobia e intolerâmcia (ver Caso Dreyfus) – deram ganho de causa para a revista. Foi como um incentivo. E a Charlie Hebdo abraçou esse incentivo e intensificou as charges e textos contra o Islã.

Mas existe outro problema, ainda mais grave. A maneira como o jornal retratava os muçulmanos era sempre ofensiva. Os adeptos do Islã sempre estavam caracterizados por suas roupas típicas, e sempre portando armas ou fazendo alusões à violência (quantos trocadilhos com “matar” e “explodir”…). Alguns argumentam que o alvo era somente “os indivíduos radicais”, mas a partir do momento que somente esses indivíduos são mostrados, cria-se uma generalização. Nem sempre existe um signo claro que indique que aquele muçulmano é um desviante, já que na maioria dos casos é só o desviante que aparece. É como se fizéssemos no Brasil uma charge de um negro assaltante e disséssemos que ela não critica/estereotipa os negros, somente aqueles negros que assaltam…

E aí colocamos esse tipo de mensagem na sociedade francesa, com seus 10% de muçulmanos já marginalizados. O poeta satírico francês Jean de Santeul cunhou a frase: “Castigat ridendo mores” (costumes são corrigidos rindo-se deles). A piada tem esse poder. Se a piada é preconceituosa, ela transmite o preconceito. Se ela sempre retrata o árabe como terrorista, as pessoas começam a acreditar que todo árabe é terrorista. Se esse árabe terrorista dos quadrinhos se veste exatamente da mesma forma que seu vizinho muçulmano, a relação de identificação-projeção é criada mesmo que inconscientemente. Os quadrinhos, capas e textos da Charlie Hebdo promoviam a Islamofobia. Como toda população marginalizada, os muçulmanos franceses são alvo de ataques de grupos de extrema-direita. Esses ataques matam pessoas. Falar que “Com uma caneta eu não degolo ninguém”, como disse Charb, é hipócrita. Com uma caneta se prega o ódio que mata pessoas.

No artigo do Diário do Centro do Mundo, Paulo Nogueira diz: “Existem dois tipos de humor politicamente incorreto. Um é destemido, porque enfrenta perigos reais. O outro é covarde, porque pisa nos fracos. Os cartunistas do jornal francês Charlie Hebdo pertenciam ao primeiro grupo. Humoristas como Danilo Gentili e derivados estão no segundo.” Errado. Bater na população islâmica da França é covarde. É bater no mais fraco.

Uma das defesas comuns ao estilo do Charlie Hebdo é dizer que eles também criticavam católicos e judeus. Isso me lembra o já citado gênio do humor (sqn) Danilo Gentilli, que dizia ser alvo de racismo ao ser chamado de Palmito (por ser alto e branco). Isso é canalha. Em nossa sociedade, ser alto e branco não é visto como ofensa, pelo contrário. E – mesmo que isso fosse racismo – isso não daria direito a ele de ser racista com os outros. O fato do Charlie Hebdo desrespeitar outras religiões não é atenuante, é agravante. Se as outras religiões não reagiram a ofensa, isso é um problema delas. Ninguém é obrigado a ser ofendido calado.

“Mas isso é motivo para matarem os caras!?”. Não. Claro que não. Ninguém em sã consciência apoia os atentados. Os três atiradores representam o que há de pior na humanidade: gente incapaz de dialogar. Mas é fato que o atentado poderia ter sido evitado. Bastava que a justiça francesa tivesse punido a Charlie Hebdo no primeiro excesso. Traçasse uma linha dizendo: “Desse ponto vocês não devem passar”.

“Mas isso é censura”, alguém argumentará. E eu direi, sim, é censura. Um dos significados da palavra “Censura” é repreender. A censura já existe. Quando se decide que você não pode sair simplesmente inventando histórias caluniosas sobre outra pessoa, isso é censura. Quando se diz que determinados discursos fomentam o ódio e por isso devem ser evitados – como o racismo ou a homofobia – isso é censura. Ou mesmo situações mais banais: quando dizem que você não pode usar determinado personagem porque ele é propriedade de outra pessoa, isso também é censura. Nem toda censura é ruim.

Por coincidência, um dos assuntos mais comentados do dia 6 de janeiro – véspera dos atentados – foi a declaração do comediante Renato Aragão à revista Playboy. Ao falar das piadas preconceituosas dos anos 70 e 80, Didi disse: “Mas, naquela época, essas classes dos feios, dos negros e dos homossexuais, elas não se ofendiam.”. Errado. Muitos se ofendiam. Eles só não tinham meios de manifestar o descontentamento. Naquela época, tão cheia de censuras absurdas, essa seria uma censura positiva. Se alguém tivesse dado esse toque nOs Trapalhões lá atrás, talvez não teríamos a minha geração achando normal fazer piada com negros e gays. Perderíamos algumas risadas? Talvez (duvido, os caras não precisavam disso para serem engraçados). Mas se esse fosse o preço para se ter uma sociedade menos racista e homofóbica, eu escolheria sem dó. Renato Aragão parece ter entendido isso.

Deixo claro que não estou defendendo a censura prévia, sempre burra. Não estou dizendo que deveria ter uma lista de palavras/situações que deveriam ser banidas do humor. Estou dizendo que cada caso deveria ser julgado. Excessos devem ser punidos. Não é “Não fale”. É “Fale, mas aguente as consequências”. E é melhor que as consequências venham na forma de processos judiciais do que de balas de fuzis.

Voltando à França, hoje temos um país de luto. Porém, alguns urubus são mais espertos do que outros, e já começamos a ver no que o atentado vai dar. Em discurso, Marine Le Pen declarou: “a nação foi atacada, a nossa cultura, o nosso modo de vida. Foi a eles que a guerra foi declarada” (grifo meu). Essa fala mostra exatamente as raízes da islamofobia. Para os setores nacionalistas franceses (de direita, centro ou esquerda), é inadmissível que 10% da população do país não tenha interesse em seguir “o modo de vida francês”. Essa colônia, que não se mistura, que não abandona sua identidade, é extremamente incômoda. Contra isso, todo tipo de medida é tomada. Desde leis que proíbem imigrantes de expressar sua religião até… charges ridicularizando o estilo de vida dos muçulmanos! Muitos chargistas do mundo todo desenharam armas feitas com canetas para homenagear as vítimas. De longe, a homenagem parece válida. Quando chegam as notícias de que locais de culto islâmico na França foram atacados – um deles com granadas! – nessa madrugada, a coisa perde um pouco a beleza. É a resposta ao discurso de Le Pen, que pedia para a França declarar “guerra ao fundamentalismo” (mas que nos ouvidos dos xenófobos ecoa como “guerra aos muçulmanos” – e ela sabe disso).

Por isso tudo, apesar de lamentar e repudiar o ato bárbaro de ontem, eu não sou Charlie. No twitter, um movimento – muito menor do que o #JeSuisCharlie – começa a surgir. Ele fala do policial, muçulmano, que morreu defendendo a “liberdade de expressão” para os cartunistas do Charlie Hebdo ofenderem-no. Ele representa a enorme maioria da comunidade islâmica, que mesmo sofrendo ataques dos cartunistas franceses, mesmo sofrendo o ódio diário dos xenófobos e islamófobos, repudiaram o ataque. Je ne suis pas Charlie. Je suis Ahmed.

Postado por El Rafo Saldaña às 09:20

 

so depois eu tive a possibiliade de ler o artigo original o saldanha

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Je ne suis pas Charlie

Em primeiro lugar, eu condeno os atentados do dia do 7 de janeiro. Apesar de muitas vezes xingar e esbravejar no meio de discussões, sou um cara pacífico. A última vez que me envolvi em uma briga foi aos 13 anos (e apanhei feito um bicho). Não acho que a violência seja a melhor solução para nada. Um dos meus lemas é a frase de John Donne: “A morte de cada homem diminui-me, pois faço parte da humanidade; eis porque nunca me pergunto por quem dobramos sinos: é por mim”. Não acho que nenhum dos cartunistas “mereceu” levar um tiro. Ninguém merece. A morte é a sentença final, não permite que o sujeito evolua, mude. Em momento nenhum, eu quis que os cartunistas da Charlie Hebdo morressem. Mas eu queria que eles evoluíssem, que mudassem.
Após o atentado, milhares de pessoas se levantaram no mundo todo para protestar contra os atentados. Eu também fiquei assustado, e comovido, com isso tudo. Na internet, surgiu o refrão para essas manifestações: Je Suis Charlie. E aí a coisa começou a me incomodar.
A Charlie Hebdo é uma revista importante na França, fundada em 1970 e identificada com a esquerda pós-68. Não vou falar de toda a trajetória do semanário. Basta dizer que é mais ou menos o que foi o nosso Pasquim. Isso lá na França. 90% do mundo (eu inclusive) só foi conhecer a Charlie Hebdo em 2006, e já de uma forma bastante negativa: a revista republicou as charges do jornal dinamarquês Jyllands-Posten (identificado como “Liberal-Conservador”, ou seja, a direita européia). E porque fez isso? Oficialmente, em nome da “Liberdade de Expressão”, mas tem mais…
O editor da revista na época era Philippe Val. O mesmo que escreveu um texto em 2000 chamando os palestinos (sim! O povo todo) de “não-civilizados” (o que gerou críticas da colega de revista Mona Chollet – críticas que foram resolvidas com a saída dela). Ele ficou no comando até 2009, quando foi substituído por Stéphane Charbonnier, conhecido só como Charb. Foi sob o comando dele que a revista intensificou suas charges relacionadas ao Islã – ainda mais após o atentado que a revista sofreu em 2011.
Uma pausa para o contexto. A França tem 6,2 milhões de muçulmanos. São, na maioria, imigrantes das ex-colônias francesas. Esses muçulmanos não estão inseridos igualmente na sociedade francesa. A grande maioria é pobre, legada à condição de “cidadão de segunda classe”. Após os atentados do World Trade Center, a situação piorou. Já ouvi de pessoas que saíram de um restaurante “com medo de atentado” só porque um árabe entrou. Lembro de ter lido uma pesquisa feita há alguns anos (desculpem, não consegui achar a fonte) em que 20 currículos iguais eram distribuídos por empresas francesas. Eles eram praticamente iguais. A única diferença era o nome dos candidatos. Dez eram de homens com sobrenomes franceses, ou outros dez eram de homens com sobrenomes árabes. O currículo do francês teve mais que o dobro de contatos positivos do que os do candidato árabe. Isso foi há alguns anos. Antes da Frente Nacional, partido de ultra-direita de Marine Le Pen, conquistar 24 cadeiras no parlamento europeu…
De volta à Charlie Hebdo: Ontém vi Ziraldo chamando os cartunistas mortos de “heróis”. O Diário do Centro do Mundo (DCM) os chamou de“gigantes do humor politicamente incorreto”. No Twitter, muitos chamaram de “mártires da liberdade de expressão”. Vou colocar na conta do momento, da emoção. As charges polêmicas do Charlie Hebdo são de péssimo gosto, mas isso não está em questão. O fato é que elas são perigosas, criminosas até, por dois motivos.
O primeiro é a intolerância. Na religião muçulmana, há um princípio que diz que o profeta Maomé não pode ser retratado, de forma alguma. (Isso gera situações interessantes, como o filme A Mensagem – Ar Risalah, de 1976 – que conta a história do profeta sem desrespeitar esse dogma – as soluções encontradas são geniais!). Esse é um preceito central da crença Islâmica, e desrespeitar isso desrespeita todos os muçulmanos. Fazendo um paralelo, é como se um pastor evangélico chutasse a estátua de Nossa Senhora para atacar os católicos. O Charlie Hebdo publicou a seguinte charge:
Qual é o objetivo disso? O próprio Charb falou: “É preciso que o Islã esteja tão banalizado quanto o catolicismo”. Ok, o catolicismo foi banalizado. Mas isso aconteceu de dentro pra fora. Não nos foi imposto externamente. Note que ele não está falando em atacar alguns indivíduos radicais, alguns pontos específicos da doutrina islâmica, ou o fanatismo religioso. O alvo é o Islã, por si só. Há décadas os culturalistas já falavam da tentativa de impor os valores ocidentais ao mundo todo. Atacar a cultura alheia sempre é um ato imperialista. Na época das primeiras publicações, diversas associações islâmicas se sentiram ofendidas e decidiram processar a revista. Os tribunais franceses – famosos há mais de um século pela xenofobia e intolerâmcia (ver Caso Dreyfus) – deram ganho de causa para a revista. Foi como um incentivo. E a Charlie Hebdo abraçou esse incentivo e intensificou as charges e textos contra o Islã.
Mas existe outro problema, ainda mais grave. A maneira como o jornal retratava os muçulmanos era sempre ofensiva. Os adeptos do Islã sempre estavam caracterizados por suas roupas típicas, e sempre portando armas ou fazendo alusões à violência (quantos trocadilhos com “matar” e “explodir”…). Alguns argumentam que o alvo era somente “os indivíduos radicais”, mas a partir do momento que somente esses indivíduos são mostrados, cria-se uma generalização. Nem sempre existe um signo claro que indique que aquele muçulmano é um desviante, já que na maioria dos casos é só o desviante que aparece. É como se fizéssemos no Brasil uma charge de um negro assaltante e disséssemos que ela não critica/estereotipa os negros, somente aqueles negros que assaltam…
E aí colocamos esse tipo de mensagem na sociedade francesa, com seus 10% de muçulmanos já marginalizados. O poeta satírico francês Jean de Santeul cunhou a frase: “Castigat ridendo mores” (costumes são corrigidos rindo-se deles). A piada tem esse poder. Se a piada é preconceituosa, ela transmite o preconceito. Se ela sempre retrata o árabe como terrorista, as pessoas começam a acreditar que todo árabe é terrorista. Se esse árabe terrorista dos quadrinhos se veste exatamente da mesma forma que seu vizinho muçulmano, a relação de identificação-projeção é criada mesmo que inconscientemente. Os quadrinhos, capas e textos da Charlie Hebdo promoviam a Islamofobia. Como toda população marginalizada, os muçulmanos franceses são alvo de ataques de grupos de extrema-direita. Esses ataques matam pessoas. Falar que “Com uma caneta eu não degolo ninguém”, como disse Charb, é hipócrita. Com uma caneta se prega o ódio que mata pessoas.
No artigo do Diário do Centro do Mundo, Paulo Nogueira diz: “Existem dois tipos de humor politicamente incorreto. Um é destemido, porque enfrenta perigos reais. O outro é covarde, porque pisa nos fracos. Os cartunistas do jornal francês Charlie Hebdo pertenciam ao primeiro grupo. Humoristas como Danilo Gentili e derivados estão no segundo.” Errado. Bater na população islâmica da França é covarde. É bater no mais fraco.
Uma das defesas comuns ao estilo do Charlie Hebdo é dizer que eles também criticavam católicos e judeus. Isso me lembra o já citado gênio do humor (sqn) Danilo Gentilli, que dizia ser alvo de racismo ao ser chamado de Palmito (por ser alto e branco). Isso é canalha. Em nossa sociedade, ser alto e branco não é visto como ofensa, pelo contrário. E – mesmo que isso fosse racismo – isso não daria direito a ele de ser racista com os outros. O fato do Charlie Hebdo desrespeitar outras religiões não é atenuante, é agravante. Se as outras religiões não reagiram a ofensa, isso é um problema delas. Ninguém é obrigado a ser ofendido calado.
“Mas isso é motivo para matarem os caras!?”. Não. Claro que não. Ninguém em sã consciência apoia os atentados. Os três atiradores representam o que há de pior na humanidade: gente incapaz de dialogar. Mas é fato que o atentado poderia ter sido evitado. Bastava que a justiça francesa tivesse punido a Charlie Hebdo no primeiro excesso. Traçasse uma linha dizendo: “Desse ponto vocês não devem passar”.
“Mas isso é censura”, alguém argumentará. E eu direi, sim, é censura. Um dos significados da palavra “Censura” é repreender. A censura já existe. Quando se decide que você não pode sair simplesmente inventando histórias caluniosas sobre outra pessoa, isso é censura. Quando se diz que determinados discursos fomentam o ódio e por isso devem ser evitados – como o racismo ou a homofobia – isso é censura. Ou mesmo situações mais banais: quando dizem que você não pode usar determinado personagem porque ele é propriedade de outra pessoa, isso também é censura. Nem toda censura é ruim.
Por coincidência, um dos assuntos mais comentados do dia 6 de janeiro – véspera dos atentados – foi a declaração do comediante Renato Aragão à revista Playboy. Ao falar das piadas preconceituosas dos anos 70 e 80, Didi disse: “Mas, naquela época, essas classes dos feios, dos negros e dos homossexuais, elas não se ofendiam.”. Errado. Muitos se ofendiam. Eles só não tinham meios de manifestar o descontentamento. Naquela época, tão cheia de censuras absurdas, essa seria uma censura positiva. Se alguém tivesse dado esse toque nOs Trapalhões lá atrás, talvez não teríamos a minha geração achando normal fazer piada com negros e gays. Perderíamos algumas risadas? Talvez (duvido, os caras não precisavam disso para serem engraçados). Mas se esse fosse o preço para se ter uma sociedade menos racista e homofóbica, eu escolheria sem dó. Renato Aragão parece ter entendido isso.
Deixo claro que não estou defendendo a censura prévia, sempre burra. Não estou dizendo que deveria ter uma lista de palavras/situações que deveriam ser banidas do humor. Estou dizendo que cada caso deveria ser julgado. Excessos devem ser punidos. Não é “Não fale”. É “Fale, mas aguente as consequências”. E é melhor que as consequências venham na forma de processos judiciais do que de balas de fuzis.
Voltando à França, hoje temos um país de luto. Porém, alguns urubus são mais espertos do que outros, e já começamos a ver no que o atentado vai dar. Em discurso, Marine Le Pen declarou: “a nação foi atacada, a nossa cultura, o nosso modo de vida. Foi a eles que a guerra foi declarada” (grifo meu). Essa fala mostra exatamente as raízes da islamofobia. Para os setores nacionalistas franceses (de direita, centro ou esquerda), é inadmissível que 10% da população do país não tenha interesse em seguir “o modo de vida francês”. Essa colônia, que não se mistura, que não abandona sua identidade, é extremamente incômoda. Contra isso, todo tipo de medida é tomada. Desde leis que proíbem imigrantes de expressar sua religião até… charges ridicularizando o estilo de vida dos muçulmanos! Muitos chargistas do mundo todo desenharam armas feitas com canetas para homenagear as vítimas. De longe, a homenagem parece válida. Quando chegam as notícias de que locais de culto islâmico na França foram atacados – um deles com granadas! – nessa madrugada, a coisa perde um pouco a beleza. É a resposta ao discurso de Le Pen, que pedia para a França declarar “guerra ao fundamentalismo” (mas que nos ouvidos dos xenófobos ecoa como “guerra aos muçulmanos” – e ela sabe disso).

Por isso tudo, apesar de lamentar e repudiar o ato bárbaro de ontem, eu não sou Charlie. No twitter, um movimento – muito menor do que o #JeSuisCharlie – começa a surgir. Ele fala do policial, muçulmano, que morreu defendendo a “liberdade de expressão” para os cartunistas do Charlie Hebdo ofenderem-no. Ele representa a enorme maioria da comunidade islâmica, que mesmo sofrendo ataques dos cartunistas franceses, mesmo sofrendo o ódio diário dos xenófobos e islamófobos, repudiaram o ataque. Je ne suis pas Charlie. Je suis Ahmed.

Dia 12 de janeiro de 2015 eu escrevia isso no facebook em resposta ao artigo do Boff :

Quando eu vejo o #JeNeSuisPasCharlie de Leonardo Boff, ou melhor o #EuNaoSouCharlie dele e alguns amigos meus brasileiros do PT sobre Charlie Hebdo, eu vejo claramente porque eles não conseguem ver o posicionamento de Charlie Hebdo. Quando você vive num estado religioso como o Brasil fica quase impossivel entender o que é um estado laico. A grande parte daqueles que falam do assunto nem sequer um numero de Charlie Hebdo leu, ou leu apenas a primeira pagina. Com certeza nao leram Hara Kiri que precedou Charlie Hebdo. Charlie Hebdo é um jornal que parece uma vez por semana sempre na quarta feira. O ultimo leitorado dele era 20000 pessoas. Ele no funcionava com propaganda para poder dizer o que bem entendia. Era, e ainda é, porque ainda nao morreu, um jornal irreverente, anticlerical, livre, não comprometido com nada a nao ser a laicidade. Criticava o estado, a direita, a esquerda. Vamos dizer que era um jornal mais ou menos com tendencia anarquista, aqui na França a gente fala anarchisant. Este jornal foi minha biblia e Reiser, Siné, Delfeil deTon, Professeur Choron, Cavanna, Wolinski, Cabu fazem parte dos meus filosofos. Tem também na França o Canard Enchainé e Minute que funcionam sobre a satira constante so que esses estão sociologicamente marcados a esquerda ou a direita. Como podem se dar conta o Charlie Hebdo foi hospedado por Libération logo depois de Charlie Hebdo ter perdido 12 dos seus colaboradores. Por outra parte muitos dos chargistas de Charlie Hebdo trabalhavam também com l’Humanité, o jornal do PC, Partido Communista Francês e outros médias como l’Echo des Savanes, Fluide Glacial, Pilote, Marianne, l’Obs, etc.. Para entender o fenomeno Charlie Hebdo tem que entender isso. Eles fazem parte de uma certa ideia da França, rebelde, iconoclasta, irreverente e anticlerical. Foi essa França « frondeuse » e republicana que milhões de franceses foram celebrar esses ultimos dias. A liberdade de emprensa no ãé negociavel. A liberdade de pensamento não é negociavel. E quando tem um problema de deontologia então tem a justiça. Não existe na lei francesa um crime que se chamaria de blasphemia. Pode dizer o que você quiser na França sobre os padres e bispos e religiosos, ninguem vai te colocar na cadeia e pior ainda te executar. Isso acontecia sim no seculo 16 e 17 na epoca das guerras de religioes que assolaram a França e fez que milhares de protestantes da religiao reformada deixassem a França para achar refugio na Suiça, Holanda, Inglaterra, Estados Unidos. Lembrem-se. Tentaram até fundar no Brasil a França Antartica ao largo de Rio de Janeiro. Os tempos da Inquisição estao longiquos. Ontem no canal de teve publico France 2 houve um programa de mais de duas horas em homenagem a Charlie Hebdo. Seria bom o senhor Boff e seus seguidores assistirem esse show Soirée Je Suis Charlie ao vivo ou pelo menos tentar recuperar esse na internet para entender o que quer dizer laicité. Tem neles cantores, humoristas, chargistas, jornalistas, escritores, politicos e dentro dos espectadores tem o ministro da cultura. Acho impossivel ver um programa desses na teve brasileira. Adorei. Ri. Chorei. Fiquei orgulhoso de ser francês. Pelo menos na França a Inquisição não tem mais vez. Pelo visto o senhor Boff gostaria que as regras da Santa Inquisiçoã fossem reestabelecidas. Na França não tem cruz no tribunal e nem na escola. Todo o cancionario tradicional francês tem chansons à boire onde tem padres safados lubricos, e religiosas gravidas e gulosas. Isso é a tradição. Que eu saiba ninguem foi morto na França nesses ultimos anos por causa do fanatismo religioso dos catolicos integristas. O islam foi naturalmente criticado em Charlie Hebdo e no momento das caricaturas de Mahomê, em nome do direito de expressão foram reproduzidas na França apesar de ser condenadas pela inteligentsia francesa e a maioria dos jornais inclusive le Canard Enchainé et le Monde em nome da paz social. Os jornalistas foram taxados de racistas, antimuçulmanos etc. Nao é então esquisito que seu Boff que deve ter uma guerra de atraso entre agora no vagão do Je ne suis pas Charlie que é o vagão seguido por Marine Le Pen do Front National e de Dieudonné, entre outros. A sociedade francesa é longe de ser perfeita mas nesses ultimos dias houve um SURSAUT. A França se ergueu e deu um basta. Agora vai ser guerra contra o terrorismo. Amanha pode ser um dia differente. Mas o grito da liberdade foi dado. Quem sabe na proxima guerra, se deus quiser, o senhor Boff entendera porque seu JeNeSuisPasCharlie ficara pra mim com a primeira burrice que eu li em 2015 mas en nome da liberdade de expressão eu lhe dou todo direito de decidir o que é bom pra França ja que entendi que ele decidiu que Dilma era boa para o Brasil.

Depois do artigo de Boff revelando o verdadeiro autor escrevi o seguinte :

Não conheço o senhor Saldanha nem de Eva nem de Adão nem de Maomê. Mas tudo que eu falei me dirigindo para o senhor Boff lhe esta dirigido por direito. Como o proprio fala, ele não sabia da existência de Charlie Hebdo antes de 2006. Pronto ! E mesmo assim falou: é uma versão francesa do Tupiniquim Pasquim. Poderia até ter pesquisado mais na internet e visto que antes de Pasquim e Hara Kiri que ele nem menciona, tinha o americano MAD. Quer dizer que o cara ignora mais de 30 anos de uma revista, lê duas charges e pronto ja sabe tudo. Nenhum francês são de espirito diria que Charlie Hebdo é um jornal de direita como o senhor Saldanha insinua. Anarquista, provavelmente. Ontem Christophe Aleveque cantou ao vivo no program no canal 2 France 2 em rede nacional esse himno, Bela ciao ciao ciao mas provavelmente para o senhor Saldanha tudo que não convem a seu paladar é de direita. O senhor Saldanha esquece ou talvez não sabia que o jornal Hara Kiri foi proibido e recomeçou com novas bases como Charlie Hebdo. O senhor gostaria que a liberdade de imprensa fosse vigiada. Umas palavras não poderiam ser ditas. Imagino palavras como pica, buçeta, foder mas aqui na frança não tem problema nenhum. Veja o programa de ontem Soirée Charlie Hebdo. Continuaram com novas charges anti-muçulmanas, anti-catolicas, antiparaiso e inferno. E houve gente para discutir o problema que interessa. O problema que interessa não é resolver problemas comunitarios. O problema é resolver o fato que cada ano 180000 jovens saem do ensino medio sem diploma e sem qualificaçao e que estes jovens vão entrar na marginalidade e depois no integrismo. Tem tambem inumeras situações de destruturação familial. Não desculpo o terrorista nunca. Não tem desculpa social, historica certa. A situaçao igual não todo mundo vira terrorista como a situação iguial nem todo padre vira fazendo apologia da teologia da libertação….Houveram 18000 tweets para fazer apologia do terrorismo e apoiar os assassinos que mataram os jornalistas. Nas escolas houve alunos que não quiseram nem fazer um minuto de silêncio. Vai ter que resolver esses problemas. Muitos jovens muçulmanos transpoem na França o conflito que tem entre Israel e a Palestina. Muitos judeus querem agora se instalar em Israel por causa das brigas eternas na França e na perigosa radicalizaçao de alguns jovens. A França tem manchas escuras no seu passado devido ao colonialismo mas o comunitarismo vitimario esta ficando demais. Afinal a descolonizacao data dos anos 60. Não se pode cobrar a França eternamente por todos os males. Seria como se o Brasil a cada instante chamasse o Portugal como responsavel da corrupçao endêmica no pais. Antigamente a extrema direita era antisemita agora muitos jovens nascidos da imigração muçulmana não escondem mais seu antisemitismo. Veja o fenomeno Dieudonné. O importante é insistir sobre nossos valores de democracia laica que não são os valores de democracia religiosa. Que isso fique claro para todos. Na França a religião maxima é a laicidade. #JeSuisLaic #JeSuisCharlie e quem nao gosta disso tem muita escolha no mundo pra achar um lugar onde a religião fique mais importante do que o Estado. Aqui funciona assim. Como no Brasil funciona de outra maneira. Outra ultima coisa; na França tem muita mistura. Ser muçulmano as vezes é apenas fazer o Ramadam uma vez por ano como ser catolico na França é apenas ir talvez uma vez por ano na igreja e batizar seus filhos e fazer uma ceremonia funebre na igreja. Ser muçulmano pode ser apenas não comer carne de porco, gostar de cuscus, carneiro e viajar de vez em quando pra La Meca ou passar duas semanas no bled. Não existe uma pratica repertoriada como muçulmano moderado como nao tem uma categoiria de catolico moderado. Ou é ou nao é, ou é culturamente. Eu pessoalmente sou culturamente pela educação que eu recebi dos meus pais , catolico. Mas inteletualmente sou ateu. Minha vida me levou a conhecer o protestantismo, o espiritismo e o candomblé depois de morar na Bahia. Adorei esse sincretismo. Mas antes de tudo sou humano e não religioso. Laico e republicano até a morte ! Mas sempre com curiosidade pra me aproximar dos outros….

Hoje dia 12 de janeiro 2018 eu tenho ainfa na mente essa musica Bella Ciao, cantada por Christophe Alévèque 3 anos atras !

Una mattina mi sono svegliato,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Una mattina mi sono svegliato,
e ho trovato l’invasor.

O partigiano, portami via,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano, portami via,
ché mi sento di morir.

E se io muoio da partigiano,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E se io muoio da partigiano,
tu mi devi seppellir.

E seppellire lassù in montagna,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire lassù in montagna,
sotto l’ombra di un bel fior.

Tutte le genti che passeranno,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Tutte le genti che passeranno,
Mi diranno «Che bel fior!»
«È questo il fiore del partigiano»,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
«È questo il fiore del partigiano, morto per la libertà!»

Hoje 12 de janeiro 2018, 3 anos depois, muita agua ja correu, muito sangue ja foi derramada : depois do sangue dos jornalistas, do policial houve sangue de gente comendo ou bebericando ou apenas tomando um cafezinho em terraças de bar ou restaurante, gente assistindo um show musical, gente festejando com a familia dia 14 de julho, gente indo assistir a um jogo de futebol, um padre na sua igreja, uma mulher no seu carro, gente comprando produtos kacher num mercadinho , outra policial caribenha, dois policiais dentro da sua casa…

A lista é extensa, devo ter esquecido alguns, a violencia terrorista se banaliza como a violencia urbana se banalizou no Brazil. Eu entendo que o Brazil até agora não foi vitima de terrorista islamista e é muito facil pra quem ta longe do olho do  furacão inventar soluções para tapar o vento. Concordo que a situação é explosiva. Hoje mesmo 3 soldados franceses foram feridos no Mali na operação Barkane que tenta acabar com o terrorismo nesta parte a Africa com a ajuda de 5 paises africanos.

Não quero dizer que tudo esta certo mais ando meio desconfiado, não vejo nenhuma solução sendo encontrada num futuro sejaz proximo ou longinquo entre Israel e Palestina, não entrevejo nenhuma paz chegando mesmo na Siria, no Iraque, no Afganistão. Enquanto os regimes atraves o mundo ficarem corruptos e mais preocupados com o bem estar dos seus bolsos do que o do seus conterraneos, acho, sim, nunca a coisa vai melhorar e que a barbaridade nunca vai acabar. Sim, ando meio desconfiado. Uma pesquisa recente mostrou que apenas 60 por cento dos franceses continuam acreditando e gritando « Je suis Charlie ». Não tem união nacional, não tem consenso nenhum  na França como na Europa como nos Estados Unidos sobre o problema da imigração e isso leva a todos os extremes !

Pelo menos constatei que os senhores Boff, Saldanha e Piber aquietaram o faixo ! não tem agitado mais suas bandeiras « je ne suis pas charlie » depois de 12 de janeiro de 2015. Seria bom saber se seu pensamento tem evoluido, se não tem algum arrependimento. Vi que o Saldanha tinha 33 anos na época e o Boff 77. Não tem idade certa para amadurecer. Vi também que o Saldanha se dizia professor enquanto o Boff falava que era jornalista. Sempre bom rever suas fontes ! E finalmente ja que Saldanha é Vascaino, torcedor fanatico do Vasco, e que Boff gosta também de futebol como ele afirmou neste artigo sobre o futebol como religião secular eu cheguei a pensar que ambos poderiam adorar South Park, este desenho animado para adultos que faz sucesso não somente nos Estados Unidos.

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Poderiam até ler esta resenha de Julian Sancton que foi publicada dia 15 de janeiro 2015. Acho sempre bom ponderar, ver outros focos e não ficar numa visão nacional da coisa. Quem sabe ! este Stick of Truth pode até ajudar !

Comrade Bob, fétiche irréaliste ou salvator mundi dans le marigot aux crocodiles ?

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Parfois l’actualité s’entrechoque et se télescope: Macron évoque les fétiches irréalistes des écologistes et dirigeants qui l’ont précédé au pouvoir; Salvator Mundi, une représentation du Christ,  un tableau de Léonard de Vinci à la suite d’un périple incroyable devient le tableau le plus cher du monde, adjugé pour plus de 400 millions de dollars; et Robert Mugabe, l’indécrottable président du Zimbabwe, le vieux lion-crocodile de 93 ans, est en résidence surveillée, sous le Toit Bleu, pressé à démissionner par une faction de son propre groupe politique après qu’il ait limogé son propre vice-président, son dauphin logique, (au surnom de  Crocodile, lui aussi, suite à son appartenance dans les années de lutte pour la libération au groupe Crocodile), leader de la faction Lacoste, Emmerson Mnangagwa, 75 ans, compagnon de route depuis plus de 50 ans, compagnon de guérilla qui lui aussi a vécu 10 ans en prison, certes un peu plus jeune mais néanmoins septuagénaire.

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Sa femme Grace qui se voyait déjà prendre elle aussi l’héritage des heures glorieuses de la guerre de libération nationale, le chimurenga, et tous les leaders du parti G40 sont soit en fuite  soit en détention. Le coup d’état est plus dirigé contre elle et ses fidèles que contre Mugabe.

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De toutes ces péripéties celle qui a imprimé en moi c’est celle de Mugabe. Je me souviens l’avoir vu pour la dernière fois lors de l’enterrement de Nelson Mandela. Et bien qu’il soit honni par une grande partie de la communauté internationale j’ai toujours eu une admiration secrète pour ce vieux combattant de la cause noire. Je dois même dire que je l’admire au moins autant que Nelson Mandela. D’ailleurs un récent sondage du journal New African Magazine place Mandela en premier dans le coeur des Africains de tous les temps alors que Mugabe est numéro trois. Pas mal pour un despote ! Il faut se libérer des libérateurs, disent néanmoins les détracteurs de l’indéboulonnable dont plus d’un ont des velléités de sécession au Matabeleland.

Oh ne croyez pas que je maîtrise l’histoire de cette partie de l’Afrique. J’ai de lointains souvenirs de Rhodésie du Sud, de l’indépendance unilatérale de la Grande-Bretagne, puissance coloniale du territoire  depuis 1890, par la minorité blanche sous le leadership de Ian Smith (1919-2007) en 1965, de 15 ans de guerre civile, de la prison de Mugabe pendant 11 ans, puis de la victoire des guérilleros marxistes du ZANU (Zimbabwe National Union) en 1980 et de la prise de pouvoir de Mugabe qui devient premier ministre puis président en 1987. De son anoblissement en 1994 par la Reine Elizabeth 2. De son pouvoir autoritaire,  de l’expropriation dans les années 2000 de 4000  gros exploitants agricoles blancs. De sa femme Grace, presque 40 ans plus jeune que lui et impopulaire.

La figure est controversée et boudée par la communauté internationale en raison de hold up électoraux et de répression sanglante. On ne lui pardonne surtout pas sa politique d’indigénisation qui consiste à donner aux Noirs les terres possédées par les exploitants blancs et ceci sans compensation.

Au départ il y avait Joshua Nkomo à la tête du ZAPU et Abel Muzoreva de l’ANC. Par la suite ZAPU et ZANU se sont fondus en ZANU-PF (pour patriotic front) et gouvernent le pays d’une main de fer depuis une éternité.

L’Union Soviétique fut l’allié naturel ainsi que Cuba sous l’ère Castro. Même si depuis 1991 la ZANU-PF a renoncé au marxisme-léninisme et a adopté l’économie de marché, Harare, l’ex-Salisbury de Rhodésie du Sud est toujours au ban des nations mais malgré les résolutions le vieux crocodile se maintient envers et contre tous depuis 37 ans au pouvoir. Malgré cet isolement diplomatique le Zimbabwe, qui intègre le SADC (Communauté de Développement de l’Afrique Australe), a une politique extérieure qui se résume à cette phrase:

Nous allons nous détourner de l’Ouest où le soleil se couche pour nous tourner vers l’est où le soleil se lève.

L’est ce n’est pas seulement la Chine mais aussi la Corée du Sud, la Turquie…

Mugabe né en 1924 a étudié au Royaume-Uni et en Afrique du Sud mais est resté au fond un gushungo (un crocodile, son animal totem). Un crocodile du calibre de pères fondateurs architectes du rêve de l’unité Africaine comme l’ont été dans les années 50 et 60  des leaders africains comme Nkwame Nkrumah, Sekou Touré, Modibo Keita.

Ce que je note surtout en lui c’est sa non-complaisance envers « the powers that be ! »

Malheureusement toute statue de commandeur se fissure devant la crise économique et financière qui sévit depuis les années 2000.

Il y a environ un mois et demi je me suis retrouvé avec deux profs d’histoire africains, tous deux sénégalais et exerçant à Mayotte qui par leur discours m’ont permis de mieux appréhender politiquement et historiquement le vieux crocodile. Les accords de Lancaster selon eux en décembre 1979 sont le legs de Mugabe. Il en est l’un des artisans. Il les a négociés habilement. La question foncière est au centre de cet accord car à l’époque il faut se souvenir que 4000 propriétaires blancs détiennent 50 pour cent des terres arables occupant 15 millions d’hectares. Dans un premier temps l’accord prévoit que pendant 10 ans  donc jusqu’à la fin 1989 il n’y aura pas d’expropriation ni de nationalisation. Seules les ventes de gré à gré sont possibles (willing buyer, willing seller) C’est la raison pour laquelle on le laissa tranquille tant que Mugabe laissait prospérer ces terres fertiles aux mains des colons britanniques (indiens, pakistanais et anglais). En 1989 il n’y a pourtant qu’un million d’hectares de terres qui a été redistribué à seulement 20000 familles. Le Land Acquisition Act de 1989 est la deuxième étape: il permet à l’Etat d’acquérir les terres en indemnisant les propriétaires. C’est sa politique d’indigénisation qui l’a fait diaboliser par la Grande Bretagne et les Etats-Unis. Là dans la troisième étape Le « BEE » (Black Economic Empowerment)  au Zimbabwe, oblige depuis 2008 les sociétés étrangères à transférer 51% de leurs actifs à des Zimbabwéens noirs.

Le Zimbabwe est loin d’être une planète florissante. Le dollar Zimbabwe est fortement dévalorisé, beaucoup de Zimbabwéens vivent en Afrique du Sud ou ailleurs, fuyant le chômage, l’hyperinflation et le sida.

Camarade Bob, autoproclamé « diplômé en violence », va-t-il jeter l’éponge ou va-t-on assister à un de ces soubresauts dont il est coutumier ? En un mot Bob bande-t-il encore? Ou fait-il partie des fétiches irréalistes que l’Afrique doit encore exorciser? Ou est-il un tableau inestimable, une toile à ranger dans les décors et les ors de l’histoire? Le retrouvera-t-on dans un exil doré en Namibie ? L’Union Africaine, Jacob Zuma, président d’Afrique du Sud, le fidèle, qui sait se souvenir que Mugabe et le Zimbabwe (comme le Mozambique d’ailleurs)  ont servi de base arrière aux camarades de l’ANC sud africain dans leur lutte contre l’apartheid; Laurent-Désilé Kabila en RDC qui doit une fière chandelle au Zimbabwe, Alpha Condé de Guinée et bien d’autres encore redoutent sans trop y croire la chute du héros de l’indépendance, de  ce vieux despote, symbole vivant et décati des contradictions de l’Afrique de ce siècle et du précédent,  presque sous le regard indifférent des 12,9 millions de Zimbabwéens. Un symbole géant quoique décrépi qu’on ne saurait impunément malmener. Le vieil homme renâcle à démissionner et laisser le pouvoir au Crocodile bis qui a pourtant été l’exécuteur de ses basses oeuvres pendant de nombreuses années. On parle de gouvernement d’union nationale. Morgan Tsvangirai, du MDC (Movement for Democratic change), leader de l’opposition, pointe le nez avec son vice Nelson Chamisa.  L’ex vice-présidente Joice Mujuru limogée en 2014 sur ordre de Grace réapparaît sur la scène politique en même temps que Constantino Chiwenga, le général, chef de l’armée. La lutte de succession est ouverte. On prie les oracles, les Achille, les Horace pour que la guerre de Harare n’ait pas lieu dans ce décor ubuesque. Mais Grace n’est pas Hélène et les fétiches sont tombés sur la tête depuis bien longtemps.

Et voilà que moi même je me sens devenir vieux crocodile nostalgique , enfin plutôt vieux caïman gâteux nostalgique du temps si lointain déjà où il collectionnait  des timbres portant des noms comme Haute-Volta, Dahomey, Gold Coast, Tanganyika, Rhodésie du Sud… Nostalgique non pas de la colonisation  mais de ce moment unique où mes frères africains se sont dressés debout contre l’oppression. Les héros sont fatigués mais ils ont été des héros, des role models qui m’ont permis à moi même d’exister. Chacun a ses limitations, les héros comme les autres. Quand vient le moment de passer la main, le jeune sang qui existe encore en quantité infinitésimale dans le flux sanguin du crocodile bouillonne, c’est humain d’accepter avec difficulté de se mettre en retrait, de ne plus être acteur pour devenir spectateur, on veut tout au moins faire son successeur, l’adouber et ainsi se perpétuer en quelque sorte, et  qu’on s’appelle Elizabeth 2 ou Mugabe 1, cela ne change rien à l’affaire.

Je me sens chez moi dans le monde entier, partout où il y a des nuages

Rosa Luxemburg, 1871-1919, théoricienne du Marxisme, qui parlait le russe, le polonais, l’allemand et l’hébreu disait cette phrase à propos des ghettos. « Je me sens chez moi dans le monde entier, partout où il y a des nuages, des oiseaux et les larmes des hommes ».

Je reprendrais bien cette phrase à mon compte en prenant soin d’y ajouter un ingrédient les gombos et d’en modifier un autre: les larmes. Cela donne donc: je me sens chez moi dans le monde entier, partout où il y a des nuages, des oiseaux, les larmes de rhum et les gombos.

Eh oui je ne suis pas marxiste. Nobody’s perfect, right ! Vous vous en doutiez, non?

Une eau naturellement parfumée à l’ozone

Le climat tropical exige qu’on se désaltère à tout bout de champ. Surtout en saison sèche qui va de juin à décembre. Les eaux se font concurrence molle. Edena, l’eau pure du cirque de Mafate, à la Réunion, lentement filtrée au coeur de la roche volcanique, qui après avoir sillonné les reliefs les plus préservés de Mafate, vient s’épancher au pied du Cimendef ! L’eau Saint-Benoît de Saint-Martin-d’Abbat dans le 45. L’eau Cristalline captée dans la source cristal ROC en grande profondeur à Ardenay-sur-Merise dans un site protégé  sur un territoire forestier de 10000 hectares. On croit rêver.

Et puis il y a O’jiva. L’eau mahoraise  naturellement parfumée  à l’ozone. J’ai dû m’y reprendre à deux fois pour lire ozone, je croyais lire arôme. Mais finalement quel goût possède l’arôme de l’ozone ? Cet ozone dont les couches sont néfastes pour l’homme. Bonnes pour l’eau ?

Je sais que quand on prend de l’eau de source avant de la mettre en bouteille on la filtre pour éliminer les traces de fer et de manganèse instables. Mais je n’avais jamais prêté attention à l’ozone comme agent filtrateur. Soit, qu’on l’utilise ainsi mais de là comme O’jiva, eau rendue potable par traitement à l’aide d’air enrichi à l’ozone, captée dans le réseau de Koungou, avoir l’audace de mettre en valeur un parfum d’ozone comme s’il s’agissait d’une eau jaillie du sein de la terre il y a selon moi un pas de trop qui a été franchi.

On sait que Mayotte souffre d’un manque de ressources en eau. Elle dépend pour 80 pour cent des ressources superficielles constituées des rivières et de deux retenues collinaires à Combani et Dzoumogné. Kesako? Pour 18 pour cent de ressources profondes (les forages) et pour 2 pour cent du dessalement de l’eau de mer par le procédé dit d’osmose  inverse. Il faudrait pour bien faire une autre retenue collinaire qui permettrait de donner à l’île son indépendance hydrique. Mais cela demande des investissements que l’Etat n’est  apparemment pas prêt à assumer sur le 101ème département.

Une bouteille d’un litre et demie d’eau se vend entre 0,62 € et 1€50 en fonction du réseau de distribution : Bdm (Jumbo Score, Score et Snie),  groupes Somaco, Discount, Sodifram. Ces groupes ont accepté de participer au dispositif BQP (bouclier qualité prix) et de publier chaque mois les prix d’une cinquantaine de produits pour montrer leur lutte contre la vie chère.

La Smae la Société Mahoraise des Eaux, a encore bien du pain sur la planche, elle qui demande à ce qu’on lui verse 88 € pour tout branchement à son réseau.

Mes intercesseurs locaux

Demain fera un mois que j’ai quitté les bords tranquilles de la Charente. Je ne traverse plus le pont Pallissy mais le pont sur la rivière Majimbini. Tout un monde sépare ces deux ponts.

En revanche l’0céan Indien en  permanence à portée de vue pour me baigner les yeux. Parfois je me demande si j’en sors gagnant ou perdant. Vivre en terre musulmane est tout un sacerdoce pour un athée fervent et pieux comme moi. J’entends tous les sons de cloche qui tintillent à mes oreilles.

Le discours de mon ami Wally, commerçant sénégalais, propriétaire de l’épicerie Zam Zam, âgé de 59 ans, qui a vécu 16 ans en Arabie Saoudite et qui est marié avec une mahoraise.

Le discours de Mohammed, le patron de snack bar comorien âgé dans les 60 ans lui aussi, qui a vécu et travaillé en métropole.

Le discours d’Olivier, un prof franco-togolais, prof de math à Mayotte et semble-t-il futur séminariste, né à Grenoble, qui a vécu en Guyane, prof de math ici.

Le discours de David qui se dit sud-africain mais que je crois congolais, qui vend ses légumes toute la sainte journée à Mamoudzou.

Le discours de mes collègues prof et éducateurs Mahorais, hommes et femmes âgés entre 25 et 45 ans avec qui je travaille et qui me donnent leur vision de Mayotte.

Le discours de Sofia, propriétaire de restaurant de cuisine mahoraise, 58 ans selon ses dires, qui a vécu comme moi à Nîmes et Kourou en Guyane Française et qui vient de rentrer de Castres pour s’installer semble-t-il définitivement au pays.

D’autres encore anonymes qui m’expliquent chacun à sa façon la société mahoraise.

Tous me disent à un moment  ou un autre comme une figure imposée en direction du bleu bite que je suis: Attention ne sors pas la nuit. Ne traverse pas les bangas ( les favelas locales). Range ton portable! Ne porte pas de pochette ! Avant de partir j’avais lu risque de palu. Faites un traitement de nivaquine. Attention aux moustiques. Attention aux mille pattes, les fameuses et terribles scolopendres dont la piqûre est extrêmement douloureuse. Attention aux islamistes. Attention à l’eau. Attention aux légumes. Attention aux fruits. Attention au sida. Attention aux comoriennes, surtout celles originaires d’Anjouan et aux malgaches qui n’en veulent qu’à ton argent. Attention au poisson que tu achètes et qu’on vend sur des brouettes. Tu penses acheter un kilo mais en réalité leurs balances sont truquées. Attention, watch out, fais gaffe, wouvè zyé.

 J’écoute, je comprends, je comprends les peurs que fait surgir le mot Islam, voire le mot Afrique dans mon entourage, voire le mot misère ou sous-développement. Mais voilà. Rien de ce qui est humain ne m’est étranger. Pour moi Islam, Catholicisme, Hindouisme, Vaudou , Spiritisme contribuent à la même aliénation. Ce qui m’intéresse ce sont les soupapes qui permettent à ces systèmes répressifs de fonctionner. J’ai bien compris qu’en terre musulmane le porc est tabou et que la consommation d’alcool est un péché. Je n’aime pas les hypocrisies religieuses qui consistent à afficher publiquement une image pieuse et d’être en privé le pire des mécréants. L’autre jour une femme a refusé de me serrer la main en me disant que l’islam ne le permettait pas et pourtant tous les matins je fais la bise à mes collègues femmes qui sont toutes deux musulmanes. On voit bien qu’il y a de nombreuses versions de l’islam. Tout comme il y a de nombreux sous produits ou produits connexes du catholicisme. Il y a des intégristes partout. Moi en tout cas je n’oublie pas que catholiques comme protestants et musulmans ont accepté si ce n’est justifié l’esclavage.

Je sais que de nombreuses personnes âgées boivent leur bière en cachette pendant le Ramadan à l’heure où ils jurent par monts et par vaux qu’ils pratiquent le jeûne. Il en a probablement été de même autrefois pendant le Carême quand la foi chrétienne était encore solidement ancrée dans les moeurs. Ce que je sais c’est qu’officiellement à Mayotte il est interdit aux épiceries de vendre des boissons alcoolisées entre 20 heures et 8 heures du matin en semaine et le dimanche à partir de 14 heures jusqu’au lendemain 8 heures du matin. Il suffit de prévoir son stock. Mais de toute façon on trouvera toujours un commerçant malgache pour vous servir votre breuvage préféré. Ce qui est sûr c’est que le matin de bonne heure les cadavres de canettes jonchent les trottoirs aux abords des lieux de perdition.

La cible préférée des petits bandits locaux ce sont les wazungu, les zorey, quoi. Les Français de souche qui viennent s’installer ici. Ce sont des minorités visibles. Moi je fais partie des minorités invisibles. Personne ne peut à priori supposer que je ne suis pas Mahorais ou Comorien. Sauf quand j’ouvre la bouche. Souvent on me fait des sourires entendus à l’occasion d’une blague mais je n’y comprends rien. Les autres étrangers se rient bien des aventures et des violences que subissent les wazungu. Ils sont vus pour la plupart comme des colonisateurs qui perçoivent de hauts salaires, louent de grosses villas, vivent en circuit fermé entre le Camion Rouge et le Camion Blanc, entre les courses à Jumbo et les activités chez les Naturalistes . De nombreux fonctionnaires, enseignants, policiers, responsables associatifs. Wazungu n’est pas l’équivalent du gringo sud américain. Le wazungu est blanc et son féminin est la wazunguette . Moi je ne vois pas foncièrement de différence entre un fonctionnaire wazungu et un autre qui ne l’est pas. J’ai l’impression que le rêve de tout jeune Mahorais est de partir en France. Souvent je vois la Tour Eiffel qui brille sur les portables. Puis quand vient l’âge on rentre au pays où on navigue entre deux terres et trois îles. On peut être né en Grande Comore, avoir vécu longtemps en Europe puis s’installer à Mayotte tout en rêvant de s’installer un jour sur son île natale où selon tous les Comoriens il fait bon vivre malgré la pauvreté. Mayotte est pleine de femmes et d’hommes venus des Comores, de Madagascar prêts à tout pour vivre une vie meilleure. Ce sont les petites mains de Mayotte, les pêcheurs, les maçons, les peintres, les agriculteurs, les lavandières, les revendeurs de fruits et légumes ce sont ces derniers qui font vivre l’île au jour le jour. Car les Mahorais occupent les fonctions nobles. Ce sont les aristocrates. Les classes possédantes, les Français plus français que les Français. Alors que pour beaucoup d’autres la France c’est la souffrance. Au bataillon de wazungu viennent s’ajouter le bataillon des Francos : les franco marocains, Franco algériens, Franco tunisiens, Franco togolais, Franco sénégalais, franco comoriens, Franco congolais, Franco réunionnais, Franco malgaches, franco guyanais, franco martiniquais et franco guadeloupéens. C’est la France en marche, ce 101ème département, mais la France en marche arrière . Et l’ennui c’est que je collabore à cette entreprise condamnée à maintes reprises par les Nations-Unies.

Fêtes nationales. Et si on revisitait le 14 juillet !?

Coq_Gaulois_2016

Allons enfants ! Que dire?  allons enfants ! Que penser ? Je suis un peu perplexe, chers enfants de la patrie. Je conçois aisément qu’on ne puisse pas cautionner toutes les fêtes qui s’égrènent tout au cours des 365 jours que représente une année et qu’effectivement quand on a évoqué les termes liberté, égalité, fraternité on en est souvent resté au vœu mieux. Il y a une lutte des classes quoi qu’on le dise et, toute liberté étant, je ne crois pas que de mon vivant un analphabète sera élu president de la république une et indivisible ! Pourtant en théorie il est l’égal de Macron et de Hollande et avant ces deux-la Sarkozy , Chirac, Mitterrand, Giscard d’Estaing, Pompidou et de Gaulle. En théorie l’immigré qui arrive en France est l’égal de Napoléon et de Louis XIV mais aussi de Marat, Robespierre, Danton, Fouquier. En théorie il est même l’égal de Dieu puisque les rois tiraient leur mandat des dieux ! De la même façon je pourrais dire je ne suis pas catholique, pas noir, je ne suis pas.juif, je ne suis pas musulman, je ne ne suis pas😍 femme, je ne suis pas gay, je ne suis pas breton donc je boycotte tout événement toute fête liée à ces catégories. À la limite je peux trouver ridicules Noël, Pâques, la Pentecôte, le 14 juillet, le 8 mai, le 2 novembre et le 11 novembre pour ne citer qu’eux. Mais je me dois me semble-t-il de respecter ceux pour qui ces dates font sens. Le 14 juillet fait partie de l’imaginaire hexagonal. Moi qui ai beaucoup vécu à l’étranger c’est le seul jour de l’année où la communauté française avec toutes ses différences se retrouve pour fêter autour d’un verre de vin ou de champagne et de quelques victuailles. L’esprit de 1789 est loi, je ne le conteste pas et il y aurait beaucoup à redire sur la déclaration des droits de 1789 mais même si à l’époque il y avait des Noirs en esclavage il ne faut pas oublier qu’il  y eut des hommes pour écrire ans le marbre pour la première fois que les hommes étaient égaux. Ce n’est pas rien que de le rappeler. Il fallut encore du temps pour réaliser le rêve et encore dans les années 60 Martin Luther King avait un rêve. I had a dream, disait il ! s’il devait rêver c’est qu encore en 1960 l’apartheid sévissait aux Etats-unis, sévissait en Afrique du Sud, encore ans les années 60 la France avait des colonies et encore aujourd’hui on voit bien que les idéaux de 1789 sont bafoués non seulement à travers le monde mais encore sur le territoire national. Certes on se console en disant que la France n’est pas la plus mal lotie. On évoque la liberté de la femme, la liberté de la presse, mais les libertés élémentaires comme le droit au logement, le droit à la sécurité pourtant écrits en lettres capitales d’or dans la constitution sont bafoués. Le droit à l’éducation égale pour tous est bafoué. certes on peut encore étudier gratuitement en France mais jusqu’à quand. Je ne dis pas que la France est un enfer, je ne dis pas non plus que c’est un paradis, je dis que le vivre ensemble est menacé par de tels discours qui restent ans le déni. Qu’on ne veuille participer à l’unanimité républicaine et chanter la Marseillaise, chant de guerre sanglant, je le conçois mais faire concurrencer les mémoires, je suis un peu mal à l’aise, je l’avoue.

J’ai des propositions pour contrecarrer la pente funeste qui semble s’ouvrir devant nous comme un champ béant de ruines identitaires! Il faudrait d’abord selon moi pour que l’égalité soit plus égale ou moins inégale, choisissez la formulation qui vous parle le mieux, il faudrait que beaucoup plus de religions aient droit à des jours fériés. Je trouve anormal moi que la religion chrétienne truste les jours fériés. J’ai une alternative. Au nom de la charité chrétienne on devrait avoir droit tout un chacun à un certain nombres de jours de congés et de ponts à prendre par an en fonction de sa religion ou de sa non religion. Voilà quelque chose qui pourrait jouer en faveur de l’égalité. On se replie toujours devant le sacro-saint argument de la tradition républicaine comme si on s’arque-boutait sur les dernières légions de l’identité française. Au nom de cette tradition ancestrale l’égalité ne serait pas bonne pour tous ! on aurait un mariage pour tous, qui serait laïque et dynamique. Mais pas d’Etre Suprême pour tous ! Je donne un exemple le concordat de 1905. Comment expliquer que ce concordat continue aujourd’hui en Alsace, en Guyane et en Polynésie française. En plus c’est de l’argent versé à fonds perdus puisque le catholicisme européen est en déshérance et qu’il ne survit en fait que par les communautés issues de l’immigration qui croient encore en une entité divine supérieure alors que depuis 1789 la France a basculé dans le culte de l’Etre Suprême ! Comment expliquer qu’en ces temps de crise l’Etat continue de financer l’Eglise, de payer des pasteurs. Les lobbyes, attention ! voila où je place moi l’Egalité majuscule. Il y a eu le mariage pour tous il devra y avoir l’Etre Suprême pour tous ! Et moi qui vous parle je suis athée !

Et on pourrait aussi changer l’hymne républicain la Marseillaise. On pourrait changer le buste de Marianne dans les mairies et mettre un coq par exemple. Pourquoi une femme ? vous êtes vous seulement posés la question ? Pourquoi pas ? je suis d’accord que le Vivre Ensemble est à la mode:  il veut être une tentative d’harmonie laïque. Il ne suffit pas de parler il faut agir, mouiller sa chemise.

L’histoire on le sait bien à toujours été racontée par les vainqueurs mais cela ne veut pas dire que les perdants ont toujours raison, notre jeune homme qui boycotte haut et fort le 14 juillet ne va pas jusqu’à boycotter la langue française qui fut aussi langue de domination. Deux poids deux mesures. On peut avoir des références autour de Nat Turner, Mohammed Ali et Malcom X et Marcus Garvey, Grover Washington, James Brown, Abebe Bikila, Senghor, Bokassa, Obama, Desmond Tutu, Christophe, MaToussaint Louverture,  Césaire, Pelé, Mickael Jackson, Marvin Gaye, Henri Salvador, Yannick Noah et qui sais-je encore mais avoir aussi de l’admiration pour des gens comme Kennedy, De Gaulle, Paul VI, Mao-Tsé-Tung. Ho-chi-minh, Roosevelt, Lenine, Gorbatchev et Gandhi, Lula, Dilma, Fidel Castro, Che Guevara par exemple. Je ne crois pas que la couleur fasse l’homme. La valeur d’un homme ne se mesure pas à l’aune de sa couleur ! Lutter pour une meilleure égalité, lutter pour une meilleure représentativité, pour une société moins archaïque moins arqueboutée sur des principes moyennageux et obscurantistes, oui, lutter pour une meilleure prise en compte des traumatismes de l’esclavage et de la colonisation, oui, mais surtout avant tout rentrer dans un dynamique d’échange fraternel, de proximité avec l’autre. Certes on pourra toujours dire et ressasser en boucle « liberté que de maux on commet en ton nom »et conjuguer le verbe commettre à tous les temps de l’indicatif et du subjonctif et du conditionnel passé, présent et même futur mais Rome ne s’est pas faite en un.jour. Le combat continue à tous les temps de la conjugaison. Mais le discours de haine ou de séparatisme selon moi ne permet pas d’avancer. Au contraire. Pour terminer je voudrais que l’interlocuteur dégoûté par le 14 juillet, jour chômé et payé, me dise s’il a travaillé le 14 juillet ou s’il a fait la fête. Car il faut être cohérent, le 14 juillet ne veut rien dire pour toi, va travailler mon ami, et laisse les autres en paix.  Le 14 Juillet est traditionnellement un jour de cohésion nationale comme le 4 juillet aux USA. Tous les pays à travers le monde ont une fête qui tente de sceller un pacte national. On sait bien qu’il y a des factions, des tribus, des rebelles, des insatisfaits, des chapelles, des castes, des misfits, des irrécupérables, des forts en gueule, des extrémistes, des huluberlus, des malfaisants, des malades, des tèbès, des flègèdès, des mowfwazé, des soukouyan, des intégristes, des désintégristes, des racistes, des fascistes et des partisans de tous les -istes  à droite comme à gauche en marche dans toutes les communautés mais le coeur de cible en termes de marketing du 14 juillet c’est l’homme et la femme de bon coeur et de bon sens. Celui qui quand il chante « aux armes citoyens » sait que les armes ont changé. Les armes font appel à la pensée, à la réflexion et à la compréhension. Ce sont ces types de bataillons que nous devons former pour que le sang ne soit plus versé et que le sens prenne le pouvoir. Allez je vous propose le nouvel hymne de la république du sens. il s’appelle  La ballade des gens heureux ! Vive la République, Vive le bonheur, Vive la France !

Libewté, égalité, fwatewnité : les mortels sont égaux

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Si je l’avais oublié, si j’avais eu le toupet de l’oublier, c’est au son du clairon que Facebook m’a rappelé ce chapitre lointain de l’Evangile Républicain.

« Liberté, Égalité, Fraternité
Nous vous souhaitons un excellent 14 juillet en compagnie de vos amis et de la famille. »

Aujourd’hui 14 juillet 2017, il y a 228 ans le peuple s’est soulevé contre l’oppresseur d’alors, le roi et l’Eglise absolutistes pour tomber dans les bras croisés de la bourgeoisie. Il leur fallut presque 5 ans pour accorder cette même  liberté, cette même égalité, cette même  fraternité à ceux qui dans les colonies françaises d’alors revendiquaient cette même liberté. Ce fut le  16 pluviôse an 2 c’est à dire le 4 février 1794. L’esclavage des Nègres fut aboli par la Convention Montagnarde au nom de la République Française Une et Indivisible .

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Les Nègres et Sangs-Mêlés de Guadeloupe connurent enfin leur premier carnaval. Ce fut un seul mélange pyrotechnique de samba, de carmagnole et de gwoka ! Ils chantaient « Liberté, liberté ouvre tes ailes au-dessus de nous, et que la voix de l’égalité soit toujours notre voix ! comme le chanterait en 1989 au carnaval de Rio l’école de Samba Imperatriz Leopoldinense : »Liberdade liberdade abra as asas sobre nos, e que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz »

Serfs, esclaves tous ensemble, tous ensemble aux Champs-Elysées, aux Champ d’Arbaud, au soleil sous la pluie, à midi ou à minuit ! C’était idyllique ! On plantait partout l’arbre vert de la liberté, la nouvelle Croix révolutionnaire sous lequel on érigeait l’autel de la Patrie, ici  un pommier, là un manguier, ici on dansait la carmagnole, vive le son, vive le son, on dansait la carmagnole, vive le son du canon, là on dansait la bamboula libérée, la bamboula effrénée en faisant un doigt d’honneur à Louis Egalité. « Liberdade liberdade abra as asas sobre nos, e que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz » !

« Les mortels sont égaux, ce n’est pas la naissance mais la seule vertu qui fait la différence ! » lisait-on sur les estampes !

Mais il faut le savoir, bien avant cela, au Cap-Français, à Saint-Domingue le 27 août 1793 Léger-Félicité Sonthonnax et Etienne Polverel avaient devancé la métropole et décrété l’abolition de l’esclavage dans la colonie de Saint-Domingue . Les circonstances les y avaient contraints  depuis la cérémonie du Bois Caïman dans la nuit du 22 au 23 août 1791 sous l’autorité de Boukman et des dignitaires vaudous et les événements qui avaient suivi : l’insurrection générale des esclaves du Nord à  Saint Domingue, l’avènement à la tête des insurgés de Toussaint-Louverture, la pression contre-révolutionnaire de l’Espagne et de l’Angleterre, monarchies contestant les lubies françaises de République. Il fallait obtenir le ralliement de Toussaint Louverture et ses 3000 partisans qui s’étaient ralliés à l’Espagne.  Ce furent les raisons objectives de cette pré-abolition de l’esclavage. proclamée le 29 août 1793 !  N’oublions pas aussi que dès le 24 mars 1792 l’assemblée législative avait voté un décret, sanctionné le 4 avril par Louis XVI, qui avait encore toute sa tête, (ce « fils de Saint-Louis » ne la perdra que le dimanche 21 janvier 1793 à 10h23) accordant la citoyenneté à tous les hommes de couleur et nègres libres. C’est donc juste un élargissement  de ce décret que promeuvent les Commissaires de la République , délégués aux îles françaises sous le vent à Saint-Domingue,  Léger-Félicité Sonthonnax et Etienne Polverel, pour y « rétablir l’orddre et la tranquillité ».

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« Les hommes naissent et demeurent libres et égaux en droit : Voilà, citoyens, l’évangile de la France ; il est plus que temps qu’il soit proclamé dans tous les départements de la République. Envoyés par la Nation, en qualité de Commissaires civils à Saint-Domingue, notre mission était d’y faire exécuter la loi du 4 avril, de la faire régner dans toute sa force, & d’y préparer graduellement, sans déchirement et sans secousse, l’affranchissement général des esclaves. (…). Dans ces circonstances, le commissaire civil délibérant sur la pétition individuelle, signée en assemblée de commune. Exerçant les pouvoirs qui lui ont été délégués par l’art. III du décret rendu par la convention nationale le 5 mars dernier ; A ordonné & ordonne ce qui suit pour être exécuté dans la province du Nord.
Article premier.
La déclaration des droits de l’homme & du citoyen sera imprimée, publiée & affichée partout où besoin sera, à la diligence des municipalités, dans les villes & bourgs, & des commandants militaires dans les camps et postes.
Article II.
Tous les nègres & sang-mêlés, actuellement dans l’esclavage, sont déclarés libres pour jouir de tous les droits attachés à la qualité de citoyens français ; ils seront cependant assujettis à un régime dont les dispositions sont contenues dans les articles suivants. »

Il fallut donc 4 ans pour que l’idéal républicain révolutionnaire de 1789 trouve son application en Guadeloupe en août 1793 avec cette première abolition, celle de 1794 étant donc la deuxième et celle de 1848 la troisième. Mais cette liberté et égalité et fraternité des mortels était une liberté assujettie à certaines clauses, certaines réserves.

Même si l’esclavage est aboli et qu’ il est remplacé par le travail forcé, même si le fouet est interdit et même si le code noir est aboli, même si on fait l’apologie non pas de la naissance mais de la vertu, on verra plus tard aussi bien en France que dans les colonies que le peuple restera toujours envers et contre tout la brebis galeuse de toutes les Républiques, de simples variables ‘ajustement ! Jusqu’aux républiques noires haïtiennes promues par Christophe et ses avatars.

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Napoléon allait siffler la fin de la récréation révolutionnaire par son coup d’Etat du 18 Brumaire An VIII (9 novembre 1799) et malgré (ou à cause de) son épouse Joséphine de Beauharnais allait mettre un hola  le 20 mai 1802 et rétablir l’esclavage dans les colonies où il avait été aboli car certaines comme la Martinique se laissèrent capturer par les monarchistes Anglais pour éviter de tomber entre les mains de ceux qu’elles appelaient la chienlit.

14juillet

Que tout cela ne vous empêche pas ‘aller vous amuser ! C’est l’été ! vivent les défilés, vivent les militaires, vivent les guerres, vivent les paix, vivent les bals populaires, les bals des pompiers, moi même, je ne dérogerai pas à la règle citoyenne :  je vais otut de suite à Saintes voir le défilé suivi du pot du citoyen offert par la Municipalité. Il y aura ce soir des feux d’artifice mais surtout je danserai sous la voile du Bar des Amis dans les Jardins de l’Abbaye ce soir à partir de 21h30 heures avec le Bal O’Gadjo  et sa rencontre fusion entre musiques européennes et musiques du monde et à partir de demain tous les soirs jusqu’au 22 juillet , une fois la nuit tombée, Doña Amelia y su Combo , la musique traditionnelle colombienne, si señor, soy salsero tambien, soy hijo primogenito de dios, soy livre, soy mortal, soy caribeño, soy hijo de nuestra señora de Guadalupe de Estremadura ! Doña Amelia y su Combo c’est Alexander Calvo, à l’euphonium, Juliette Macquet, à la flûte, Cristian Ospina, à la batterie et Amélie Lejosne, à la contrebasse ! C’est un peu colombien, un peu français, c’est poivre et sel et un peu piment, c’est métissé, c’est tout-monde, c’est tout moi !

 

souvenirs de congés bonifiés comme le café

Heureux les fonctionnaires de l’Ultramarinade car ils auront droit aux congés bonifiés ! La Guadeloupe est-elle le centre de mes intérêts matériels et moraux ? Se poser la question c’est déjà y répondre. Moi je réponds à l’administration: oui. Pas folle la guêpe ! Donnez mwen mon congé bonifié tout de suite et que ça saute ! Ne chipotez pas sur mes droits. J’ai quitté la Guadeloupe il y a plus de 50 ans ? Et alors ? Est-ce ma faute si le Bumidom m’a déraciné ?Arrêtez avec vos calculs d’apothicaire vicieux et misérable et donnez-mwen mes affaires ou je vous traîne devant la Cour d’Etat, espèce de bureaucrate ! Apajé ! Tout ça pour un ti congé extra de 65 jours payé avec un ti bonus de 35  pour cent et plus et sept passages avion aller-retour en classe touriste! C’est un droit acquis et je me battrai jusqu’aux bout de mes ongles incarnés pour le maintenir pour tous ceux qui n’ont pas pu  jusqu’à présent en bénéficier !

L’utopie est belle ! Mais au fond de moi, dans le fondok du trou béant de mon subconscient je sais bien depuis nanninanan, depuis que j’ai lu Glissant  que la Guadeloupe est l’une des racines de mon identité rhizomique, que j’appelle identité wolfokienne. Elle n’est ni au centre ni à la périphérie de mes intérêts matériels et moraux. Elle contribue à mon identité comme y ont contribué la France, les Etats-Unis, la Hollande, le Brésil et toutes les personnes que j’ai croisées, tous les livres que j’ai lus, toutes les personnes que j’ai aimées ou détestées.

Tous les 36 mois tout originaire d’un département d’outre-mer travaillant dans une collectivité publique peut bénéficier aux frais de la princesse d’un mois supplémentaire de congé et d’un salaire différencié qui tient compte de la vie chère et de l’éloignement de son centre d’intérêts matériels et moraux et de billets d’avion aller -retour pour toute la maisonnée. C’est l’Etat magique et providentiel qui régale ! L’Etat magique prend même en charge jusqu’à 15 kilos par personne de fret supplémentaire. Ce n’est pas négligeable quand on part avec ses enfants. On peut ainsi ramener des cubitainers de rhum pour la famille et les copains, de l’igname, du dachine, du fouyapen, des gombo, des wassous, du  lambi, des kilos de colombo,  du sirop de batterie, de la confiture de goyave, de la farine de manioc et des mètres linéaires de madras pour peupler la grisaille de l’hiver métropolitain.

Ainsi pendant les grandes vacances, à Noël, à Pâques, à la Toussaint ou pendant le carnaval, périodes de pointe s’il en est pour le transport aérien en direction de ces paradis tropicaux, l’Etat régale au prix fort !

Je vais vous dire la vérité vraie et véridique. La dernière fois que j’ai pu bénéficier d’un congé bonifié, je suis rentré avant la fin de mes 2 mois, je n’en pouvais plus. Mes enfants qui étaient tout petits s’ennuyaient, moi même qui ne pouvais pas sortir le soir m’ennuyais, puisque je devais rester à la maison pour les surveiller, la journée il faisait trop chaud pour eux et le soir ils étaient fatigués et je me suis surpris à passer la journée à regarder le tour de France à la télé. J’étais une bonne partie du séjour chez ma mère qui après presque 40 ans en France était revenue après la mort de mon père au bercail et qui elle ne vivait et respirait que pour l’église du Carmel à Basse-Terre. On faisait de petites excursions mais avec des enfants de 16 ans, 7 ans et 5 ans c’était un peu compliqué pour satisfaire les besoins et envies de chacun. Moi par exemple je ne pouvais pas me consacrer comme je voulais à mes recherches généalogiques à Gourbeyre. Deux mois dans un espace aussi clos pour moi qui ai vécu au Brésil c’était un enfermement. En plus à part les bokits et les boudins et le poulet boucané les accras et les floups tout était horriblement cher (comparé à ce que j’aurais dépensé au Brésil pour des vacances, mais malheureusement l’Etat ne payait pas pour mes vacances au Brésil ou pourtant mes enfants et leurs mères avaient des intérêts matériels et moraux tout à fait sérieux ). Pas de bus le soir. Il fallait que je loue une voiture donc, qui ne me servait pas à grand chose. Je n’ai pas mangé de wassous ni de lambi ni de langouste. Les bons souvenirs pour mes tout petits ont été Deshaies et Bouillante, Basse-Terre probablement pour ma grande. Quant à moi qui suis parti des Antilles à l’âge de 9 ans  je la regarde toujours à travers le regard du souvenir. Et une fois que j’ai fait le pèlerinage Saint-Claude, Deshaies, Basse-Terre, localités chères à mon coeur et peuplées d’images et de visages fanés, je ne suis qu’un touriste comme les autres. La famille, me dites-vous ! Tant qu’il y avait ma grand-mère c’était encore la fête. Elle me trimbalait à droite et à gauche et elle aimait bouger ! Elle me faisait rencontrer les parents et elle en profitait pour les revoir elle aussi. Je faisais aussi des visites protocolaires à ma marraine, mes tantes, à mes oncles, à mes grands-tantes quand ils étaient encore vivants, je voyais des cousins, des cousines, avec qui je n’avais plus aucun lien, aucune affinité, et coup de grâce je parlais kreyol comme une vache espagnole.

Ta la té rèd menm ! alors que je parle couramment – c’est écrit sur mon CV -anglais et portugais – je bégaie quand je parle créole – que voulez-vous je suis un négropolitain, pire un mondopolitain, un wolfokpolitain, un déraciné loin de mon île ultramarine  mais aussi un enraciné possédé et hanté par le Tout-Monde ! Alors n’allez surtout pas dire à mes enfants qu’ils sont guadeloupéens. D’ailleurs aucun n’y est né, deux sont nés au Brésil, trois en métropole, quatre sont de double nationalité française et brésilienne, une est de double nationalité française et hollandaise avec influences indonésienne et surinamienne. Alors guadeloupéen ce n’est pas vraiment une préoccupation pour eux ! Y passer une semaine ou deux, au grand maximum, comme on passe une semaine à Bali ou à Sidney. Ils vont peut-être zouker et avoir la gwada attitude un jour ou l’autre – ça c’est chic – i’m gwadada, je suis du neuf sept un, mais sinon il n’y a personne au numéro que vous avez demandé. Grâce aux congés bonifiés j’ai pu faire ma b.a. : je les ai emmenés chez moi, au pays. L’un a même fait ses premiers pas sur le sable de Deshaies. J’ai fait mon devoir comme on dit. Après ils feront leur chemin, leur propre chemin individuel pour découvrir où est leur chez eux. Seuls eux d’entre eux n’y ont jamais mis les pieds mais je me console en pensant que ce n’est pas seulement la Guadeloupe. Ma fille aînée dont la mère et grand-mère sont nées en Indonésie et dont le grand-père est né au Surinam n’a jamais mis les pieds ni en Indonésie, ni au Surinam ni en Guadeloupe. Peut-être faut-il donner du temps au temps puisque la mère de cette dernière n’a été au Surinam pour la première fois pour visiter la terre de feu son père que passés ses 60 ans au moment de sa retraite. Quant à moi je rêve parfois d’un retour au pays natal mais ça reste du domaine du rêve. En fait j’aimerais juste y mourir – pas tout de suite quand même, laissez-moi voyager, vagabonder encore, laissez-moi flâner, laissez-moi driver encore un ti krazi pour retrouver mon nombril planté sous un pied de coco du côté de la Soufrière !

Les intérêts dont parle l’Administration sont aussi simples qu’être né aux Antilles, y avoir de proches parents, ou y avoir étudié avant d’entrer  dans l’administration, ou y payer ses impôts, locaux ou fonciers, bref il faut obéir à certains critères.

Tout d’abord il faut se souvenir qu’avant cette réglementation qui date de 1978, les Antillais devaient cumuler plusieurs années sans partir en vacances pour pouvoir partir aux Antilles. De leur côté les métropolitains qui travaillaient aux Antilles ou dans les autres Dom pouvaient eux bénéficier de facilités identiques. La décision de 1978 a été juste une mesure d’égalité de droit au nom sacré de la continuité territoriale.

Mais en y réfléchissant, même si j’ai pu garder le lien avec les Antilles grâce à mes deux parents qui étaient fonctionnaires et qui par deux reprises m’ont emmené dans leurs bagages, même si, grâce à cette mesure j’ai pu faire connaitre à 3 de mes enfants les Antilles, et ceci à deux reprises, je me pose la question : est-elle juste ?

Il y a en France des communautés de toutes origines, français comme moi, venus de terres encore plus lointaines et qui ne peuvent pas bénéficier de tels avantages. Est-ce juste ? Ne sommes-nous pas privilégiés ! Il ne s’agit pas pour moi de cautionner l’abolition de ces privilèges mais de réfléchir à ce qu’est l’égalité. On peut certes faire jouer l’égalité par le haut et se dire  que tout français d’origine étrangère dont le centre des intérêts matériels et moraux se trouve dans une terre en dehors de la métropole devrait pouvoir bénéficier de cette disposition dite de congés bonifiés.

C’est clairement un privilège ! A un Corse qui enrageait que je puisse partir en bonifié et lui non j’ai un jour répondu avec un grand sourire: « pour une fois qu’on a droit à un petit privilège, nous les Antillais, je ne vais pas  renoncer à mes 65 jours de congés ». Mais l’argument est un peu trop facile. Plus de 30000 fonctionnaires antillais prennent chaque année leurs vacances vers la terre-patrie. Autrefois quand les transports étaient en bateau je comprends que, au nom de la continuité territoriale, cet avantage ait pu faire sens mais maintenant c’est un peu abusé, je trouve.

Maintenant dans le cadre de ce régime très spécial on n’a plus besoin de cumuler donc on peut partir tous les 3 ans aux frais de la princesse et tous les ans voire deux fois par an ou plus à ses propres frais.

Et je ne parle même pas de ce droit dans le secteur privé !

Que dit en relation à tout cela le bon roi Emmanuel Premier ! Voici ce qu’il disait en réponse à une question d’un  originaire d’outre mer lors de la réunion qu’il a tenue le 8 avril 2017 à son QG de campagne avec les représentants associatifs des domiens en tant que candidat à la présidentielle : la question était ;

Question : « Monsieur MACRON bonjour, pour faire écho à ce qui a été dit par mon président, Monsieur Jean-Michel MARTIAL, je suis fonctionnaire de la fonction publique hospitalière. On parle d’égalité des chances. Je voudrais vous poser une question : si vous arrivez au pouvoir, il y a toute une série de dysfonctionnements par rapport à des congés. Par exemple, le congé bonifié des fonctionnaires de la territoriale dont l’État, au quotidien, se permet de… On dénie aux Antillais le droit d’être… subitement on leur dit “ça fait vingt ans que vous vivez en France, vous perdez votre antillanité”. Donc on leur retire le congé bonifié. Je voudrais savoir : quelle est votre position là-dessus ? Ce n’est pas une question mesquine, mais c’est une question qui concerne beaucoup de nos compatriotes qui travaillent dans les mairies, dans les hôpitaux, et il faudra, à la limite, l’expliciter plus clairement. Comment vous voyez les choses ? »

La réponse fut :

« Pour ce qui est de la fonction publique hospitalière et des congés bonifiés, je prends note de votre sujet. Je ne vais pas vous faire de clientélisme. Mon point n’est pas de changer drastiquement le système, de vous faire des promesses ou de vous garantir telle ou telle chose qui n’existe pas aujourd’hui. Je ne vais pas vous mentir, sinon vous diriez que je fais un tapis rouge pour les campagnes, aux Ultramarins.

Comme vous m’avez compris, ce n’est pas le cas, mais je vous parle comme à des gens qui ont des responsabilités associatives et politiques et qui sont concernés par les sujets des Ultramarins vivant en Hexagone et les sujets de l’Outre-mer plus largement. On regardera donc s’il y a des problèmes spécifiques qui existent sur les congés bonifiés après 20 ans et qui justifient, dans certains cas familiaux, de faire des aménagements mais je ne compte pas, sur ce sujet, changer les règles existantes. »

Dont acte ! Mais cyclone échaudé craint l’eau froide ! Alors messieurs et dames de l’Ultramarinade réveillez-vous. Au nom de l’égalité cet avantage dont vous avez pu jouir et dont vous jouissez encore, jouissez-en à gorges déployées. Prenez une ration douce de jouissance. Une ration doublement douce et préparez-vous à des lendemains amers. Ce qui est pris n’est plus à prendre. Prenez et multipliéz vos bonifiés et préparez-vous à boire votre café bonifié amer, sans le sucre roux, sans le miel, sans le sirop de batterie de l’Etat magique.